O futuro segundo o Google

Fonte: Mundo do Marketing
Por James Manyika, da McKinsey para a HSM Management

Poucos negariam que a internet está se tornando o coração do mundo. Bem poucos negariam que o Google já é o coração da internet. Líder dos sistemas de busca, trata-se da principal marca da rede mundial de computadores e da empresa de serviços gratuitos mais poderosa do planeta. Administrar essa posição de comando é, em grande parte, responsabilidade do experiente executivo de tecnologia Eric Schmidt, que, em 2001, foi nomeado para o cargo de CEO pelos fundadores do Google, Sergey Brin e Larry Page. 

Nos oito anos passados, Schmidt vem expandindo o sistema Google e, antecipando as maneiras como as pessoas ampliam o uso da internet, tem lançado novos produtos. E o futuro? Nesta entrevista, ele antevê assistentes digitais mais potentes e muito espaço para a criatividade humana – se as organizações permitirem, é claro.

materia_google_schmidtA internet mudou o mundo. Que novos desenvolvimentos você antevê?
Quando as pessoas tiverem equipamentos pessoais poderosos, conectados a redes infinitamente rápidas e servidores com muito conteúdo, o que elas farão? Haverá um tipo novo de aplicativo, pessoal. Vai rodar em algo equivalente a seu telefone celular. Saberá onde você está por meio de um GPS, e você o usará como seu assistente pessoal e social. Saberá quem são seus amigos e quando eles estarão próximos de você. Ele o lembrará dos aniversários de seus parentes e amigos e o divertirá. Vai avisá-lo de ameaças iminentes e atualizá-lo sobre os acontecimentos. Usará todo o poder computacional que está na “nuvem”, como costumamos dizer. Por exemplo, quando você for a uma loja, esse aparelho lhe permitirá decidir o que comprar ao melhor preço e com a melhor entrega. Quando estiver na escola, ele o ajudará a aprender, uma vez que ele “saberá” muito mais do que você um dia conseguirá saber. Assim, essa visão de um poder computacional praticamente infinito, o poder das redes, e esse equipamento poderoso são a base para a próxima geração de computadores.

Munidas de todo esse arsenal tecnológico, o que acontecerá com as pessoas e o modo como vivem e trabalham?
Já há enorme explosão de conteúdo, mas ainda muito pouca compreensão sobre isso. Eu penso que o gap entre o que os computadores fazem (que é trabalho de análise e replicação em volumes muito altos) e as coisas que os seres humanos podem realizar (que são essencialmente intuitivas) é grande. Nós provavelmente não veremos essa lacuna se fechar muito. As empresas mudarão a maneira como vendem os produtos às pessoas, que serão cada vez mais auxiliadas por computadores. Mas, em última instância, nós ainda controlaremos o mundo. A parte difícil da mensagem é que tudo acontecerá mais rapidamente – cada ciclo de produto, cada ciclo de informação, cada bolha –, devido aos efeitos de rede, uma vez que todos estarão conectados e conversando entre si. Os que já estão cansados do ritmo das mudanças ficarão ainda mais estressados, mas uma nova geração está crescendo tendo isso como a cadência normal de sua vida.

A internet derrubará barreiras, tornando os mercados mais democráticos?
Eu queria poder responder que a internet criou um campo tão plano que a cauda longa é certamente o lugar onde se deve estar e que há muita diferenciação, diversidade, vozes novas… Infelizmente, não é esse o caso. O que realmente acontece é algo chamado “lei do poder”, caracterizada por um pequeno número de coisas altamente concentradas e por uma grande quantidade de outras coisas de volume relativamente pequeno. Virtualmente, todos os novos mercados de rede seguem essa lei. Em outras palavras, ainda que a cauda seja muito interessante, a maior parte da receita permanecerá na cabeça. E essa é uma lição que as empresas têm de aprender. Ao mesmo tempo em que você pode seguir uma estratégia de cauda longa, é melhor que tenha a cabeça, porque é aí que o dinheiro está. É provável que a internet leve a grandes sucessos de vendas e a maior concentração de marcas, o que nem faz muito sentido, por ser o meio que é, com maior capacidade de distribuição. Mas, quando se juntam as pessoas, elas ainda querem uma superestrela – só que não mais uma estrela norte-americana, e sim mundial.

Como as empresas fazem dinheiro nesses mercados?
“Grátis” é melhor do que “barato”. Esse princípio tão simples foi deixado de lado por muitos gestores. Alguns modelos de negócio envolvem o “grátis” como fonte adjacente de recursos, quando, na verdade, “grátis” é um modelo viável pelas vantagens de branding, nas cobranças de serviços e outras coisas. Há um modelo de negócio diferente daquele ao qual a maioria de nós está acostumada, porque vai contra a velha lei da economia que diz que o preço do produto tende, no final, ao custo marginal de sua produção e distribuição. No mundo digital, para produtos digitais, o custo marginal de fabricação e distribuição é efetivamente zero ou próximo de zero. Assim, para essa categoria de produtos, é razoável esperar que o modelo do “grátis”, com o auxílio do branding e das oportunidades de receita, seja muito bom.

Dê um exemplo sobre como um setor pode se adaptar a essas mudanças…
Obviamente, para coisas que têm algum custo físico de produção, você estará perdendo dinheiro em um milhão de unidades de uma vez, a menos que surja alguma receita compensatória. A telefonia seria um exemplo clássico disso. A maior parte dos custos de infraestrutura física de telefonia é perdida. O custo operacional não é tão grande – basicamente, cobrança e afins. Imagine uma situação na qual a telefonia passasse da cobrança por minuto para a cobrança na aquisição do telefone. Você compraria o telefone e, embutida no custo, estaria parte daquela infraestrutura. Com isso, você poderia usar o telefone para sempre. Mas, pelo menos no mundo digital, as pessoas têm de aceitar que o custo de transmissão e distribuição não aumentará. Está caindo. Quem constrói o aparato físico que se conecta à transmissão e à distribuição transformará seus modelos em algo mais similar à forma pré-paga, porque será mais eficiente do ponto de vista do consumidor.

Em face disso, que mudanças serão necessárias na gestão de empresas?
A internet está nivelando as empresas de diferentes portes de várias maneiras: distribuição, branding, dinheiro e acesso. Mas há muitas outras implicações para o modo como elas operam. Elas não podem ser tão controladoras. Têm de deixar a informação sair. Precisam ouvir os clientes, porque os clientes estão falando com elas. E, se não falarem com eles, o concorrente falará. Enfim, há uma longa lista de razões pelas quais uma empresa mais transparente significa uma organização melhor. Muitos modelos de negócio ainda são baseados em controle; meu exemplo favorito é o de distribuição de filmes. Como consumidor, quero assistir aos filmes quando me der vontade e no meio que eu desejar. No entanto, toda a estrutura econômica do negócio dos filmes, até recentemente, era organizada em torno da distribuição em determinado formato, a dado preço, o que pressupunha um pouco de espera. Mas, no novo mundo, não esperarão. Além disso, já temos muitas evidências de que grupos tomam melhores decisões que indivíduos, especialmente quando são selecionados entre as pessoas mais inteligentes e as mais interessantes. A sabedoria das multidões argumenta que você pode operar uma empresa por consenso, que é como o Google opera.

Como vocês fazem isso?
Duas coisas são necessárias para uma empresa operar por consenso. A primeira é ter alguém que determine um prazo. Em uma organização, o papel de um líder geralmente não é forçar um resultado, mas a execução, ou seja, estabelecer um prazo, seja em uma crise real ou criando uma crise. E uma boa estratégia gerencial é: “Vamos criar uma crise nesta semana para que todos ultrapassem tal barreira”. A segunda coisa é ter alguém que discorde. Se não houver discordância, você terá um rei. E o novo modelo de governança se opõe radicalmente a isso. O que eu tento fazer em reuniões é descobrir as pessoas que não falaram, que costumam ser as que têm medo de falar, mas possuem opinião divergente. Eu faço com que digam o que pensam realmente e isso promove a discussão – e a coisa certa acontece. Encorajar essa abertura é uma arte, não ciência. Fato é que as melhores ideias normalmente não vêm dos executivos. E, infelizmente, os executivos não concordam comigo a esse respeito.

Em sua opinião, existe um tipo de organização que tenha vantagem na hora de inovar?
Executivos sempre querem simplificar a vida e, por isso, estruturam seu negócio  em três divisões, quatro produtos, o departamento de marketing e assim por diante. A fórmula até pode continuar funcionando em algumas empresas, mas a maioria, devido à natureza da tecnologia, ficará mais complexa. As empresas terão mais produtos e mais variação de linha ao longo do tempo. E será importante, para manter uma barreira aos competidores, ter produtos resilientes, em escala, diferenciados e de alcance internacional, o que significa que não podem mais ser criados por duas pessoas apenas. Em nosso caso, como reconhecemos que a inovação vem de pequenas equipes e nos organizamos de acordo com isso, nós também encorajamos as pessoas a falar umas com as outras. Uma das coisas que tentamos evitar no Google é o tipo de estrutura divisional e de unidades de negócios que impede a colaboração entre as unidades. É difícil. Mas tentamos porque isso elimina os laços informais, que, em uma cultura aberta, levam a muita colaboração. Se as pessoas entendem os valores da empresa para a qual trabalham, devem ser capazes de se organizar para lidar com os problemas mais interessantes. Se não são capazes de fazê-lo, é porque você não conversou com elas, não construiu uma cultura de valores compartilhados.

Para terminar, quais são os perigos que você enxerga no contínuo desenvolvimento da internet?
Há uma série de iniciativas de construção de um padrão global para a web. Dada a história das guerras e da política global, é altamente improvável que vejamos um único regime, por exemplo, para leis de direitos autorais, para definir quais conteúdos são apropriados, ou quais são as penas para o conteúdo inapropriado ou para todas as questões que as pessoas enfrentam no mundo on-line. O modo de solucionar esse problema, hoje, é usar domínios por país. Assim, um domínio de um país é visto como diferente, como o domínio americano, que é o “ponto com”. É provável que ocorram desafios legais e políticos ao longo dos anos, e eu acho que o próximo virá em breve. Na internet, as pessoas sempre estão sujeitas às leis locais. Mas será uma tragédia, por essas questões, que ela se torne dividida em um nível físico. Não será? Será uma tragédia se cada país construir uma espécie de polícia em torno de sua internet [no Brasil, por exemplo, essa questão está em tramitação no Congresso Nacional]. É muito melhor usar outras abordagens para se assegurar de que o que for legal em um país e ilegal em outro não vá de um para outro sem a supervisão apropriada. Dada a complexidade disso tudo, meu conselho é que as empresas globais tenham muitos advogados, cada um especializado em determinada lei nacional – um na lei brasileira, outro na turca, outro na europeia etc.

Como o Google inova, segundo Schmidt
“A inovação sempre foi liderada por uma pessoa ou por uma pequena equipe que se dá ao luxo de ter uma nova ideia e ir atrás dela. Não há exemplos contrários. Já era verdade há 100 anos e será verdade nos próximos 100. A inovação é algo que vem quando você não está sob a mira de uma arma. Então, é importante que, mesmo que não haja equilíbrio em sua vida, você tenha tempo para reflexão, de modo que possa dizer ‘Bem, talvez eu não esteja trabalhando na coisa certa’ ou ‘Talvez eu devesse ter uma nova ideia’. As partes criativas da mente de uma pessoa não seguem uma agenda.

Em nosso caso, tentamos estimular a inovação com coisas como os 20% do tempo [reservados à criação pessoal] e as pequenas equipes de tecnologia, que não têm uma direção. Tentamos encorajar o verdadeiro pensar fora da caixa. Também procuramos pequenas empresas que possamos adquirir, porque, com frequência, são elas que têm as grandes novas ideias. Elas começam essas ideias, mas não podem, de fato, completá-las.

O objetivo do Google é ser uma inovadora sistemática e em escala. ‘Escala’ significa mais de um. ‘inovadora’ significa produtora de coisas que realmente fazem você gritar ‘uau!’. E ‘sistemática’ quer dizer que podemos sistematizar a abordagem – nós realmente podemos conseguir que nossos grupos inovem. Nós não sabemos, necessariamente, quem será bem-sucedido neste mês, mas temos grupos suficientes para que umas poucas inovações surjam. E, é claro, também eliminamos aqueles que não são bem-sucedidos. Nós os pressionamos para tentarem fazer algo diferente ou redefinir o objetivo se necessário. É claro que os projetos são cancelados quando não funcionam, mas isso é relativamente raro.”

Uma festa de R$ 600 milhões

Fonte: Istoé Dinheiro
Por Roberta Namour e Claudio Gatti (foto)

Durante dois dias, o celular de Romero Rodrigues tocou ininterruptamente. Do outro lado da linha, cumprimentos calorosos, vindos até de velhos rivais. Cada vez que atendia às ligações, a euforia era a mesma. O peito estufado de satisfação, a risada nada contida. Rodrigues completou 32 anos na quinta-feira 1º. Mas a alegria não se deve apenas à comemoração do aniversário. No dia anterior, 30 de setembro, sua empresa fechou uma das maiores negociações da história da internet brasileira. É a mais relevante, pelo menos, desde o estouro da bolha, no início do século. O Buscapé, site de comparação de preços que ele criou em 1999 com três amigos, recebeu US$ 342 milhões por 91% de suas ações, o equivalente a cerca de R$ 600 milhões. “Até agora não me dei conta do que isso representa”, diz Rodrigues, que ocupa o cargo de presidente do Buscapé. Ele pode estar atônito de felicidade – e talvez só daqui a alguns dias possa dimensionar o que o negócio significa – mas até a concorrência já tem na ponta da língua um palpite. “A operação projeta o Brasil de volta ao radar de grandes investidores globais”, afirma Rodin Spielmann, diretor de Relações com Investidores da Ideiasnet. A cifra, digna de transações de países desenvolvidos, é vista por analistas do mercado como o início de uma nova onda de investimentos na internet. “A diferença é que, desta vez, o mercado está mais desenvolvido e os negócios, mais estruturados”, acrescenta Spielmann. A oferta milionária veio da sulafricana Naspers – maior grupo de mídia da África. A companhia, dona de 30% da Editora Abril, comprou a parte do fundo Great Hill Parners, até então sócio majoritário do Buscapé, e a fatia de cinco dos nove sócios minoritários. Foi nesse clima festivo que Romero Rodrigues, Rodrigo Borges e Ronaldo Takahashi, fundadores do site, e Rodrigo Guarino, fundador do Bondfaro, concorrente adquirido três anos antes, receberam a equipe da DINHEIRO, quinta-feira da semana passada. O encontro foi realizado no escritório da empresa na Vila Olímpia, em São Paulo.

Junho de 1999: formação original da equipe do Buscapé, com o estudante de administração Mario Letelier (primeiro à direita)

Com um sorriso contagiante, de jeans e camiseta, Romero Rodrigues abre as portas do escritório se desculpando pelo atraso. Perdeu a hora ao receber dos pais uma cesta de café da manhã em comemoração ao seu aniversário. No local, os outros três sócios o aguardam com ansiedade para apagar as velinhas de uma festa improvisada. O bolo ficou pequeno para os 350 funcionários que hoje integram a equipe. Há nove anos, naquele mesmo lugar, o grupo se resumia a pouco mais de uma dezena de pessoas. No ambiente, que atualmente abriga uma tevê gigante com videogame ligado e um hockey de mesa (jogo de mesa comum em bufé infantil), ficava apenas um computador e um beliche. A cama de dois andares era usada em esquema de revezamento durante as muitas madrugadas viradas na programação do site. Um ano antes disso, as reuniões eram feitas em casa, pelo ICQ, ferramenta de comunicação pela internet, anterior ao MSN. “Trabalhávamos de madrugada para economizar com a tarifa da internet”, lembra Ronaldo Takahashi. Na época, o acesso à rede era discado e a tarifa telefônica, mais barata depois da meia-noite. Os criadores do Buscapé eram estudantes e estagiários da Poli, faculdade de engenharia da Universidade de São Paulo, e tinham renda mensal de R$ 300 cada um.

O Buscapé foi a terceira tentativa empreendedora do grupo de jovens. Antes trabalharam na criação de um software para uma empresa de logística. A ideia de fazer um site de comparação de preços aconteceu por acaso. Rodrigo Borges queria comprar uma impressora pela internet, mas não conseguiu fazer uma pesquisa por falta de informações disponíveis na rede. O empecilho se tornou uma oportunidade de negócios. “Era só uma brincadeira. Decidimos apostar nela”, lembra Rodrigues. O investimento inicial de cada um foi de R$ 100 para pagar a hospedagem do site e a conta do celular. “Eu nunca acreditei no Buscapé, mas eles conseguiram transformá-lo no melhor negócio do mundo”, afirma Alexander Mandic, o precurssor da internet no Brasil. Atualmente, o site possui mais de 600 mil lojas cadastradas e recebe a visita de 62 milhões de usuários por mês (leia quadro).

De acordo com os especialistas, o estouro da bolha da internet expulsou do mercado as empresas que tinham projetos menos viáveis

Os jovens empreendedores não sabiam que seria tão difícil convencer os varejistas a disponibilizar a lista de seus preços. A equipe chegou a ser ameaçada pelo advogado de uma grande rede de varejo, contrariada por ter sido citada no Buscapé. A empresa queria que suas ofertas fossem removidas da página. Pouco tempo depois, o site passaria a cobrar uma taxa por clique efetuado pelos internautas em seus produtos. A varejista em questão foi retirada do site por não ter concordado com o esquema de cobrança. “No dia seguinte o mesmo advogado ligou dizendo que ia me processar se não voltasse a publicar suas ofertas”, afirma Rodrigues.

Esse não foi o único obstáculo que a equipe do Buscapé teve de enfrentar. “Chegamos a ficar nove meses sem retirar o salário, com medo de não conseguir sobreviver à crise que se alastrou pela rede”, lembra Rodrigo Borges. O Buscapé foi criado um ano antes do chamado estouro da bolha na internet, em 2000. Depois de um período de euforia, muitos investimentos milionários acabaram se transformando em enormes prejuízos. Com isso, os negócios rarearam e as dúvidas sobre a viabilidade financeira de empresas ligadas à internet passaram a ser cada vez maiores. “Não foi a internet que estourou e sim o modelo de fazer negócios”, lembra o especialista em economia digital Cid Torquato. “A bolha expulsou quem tinha projetos menos viáveis”, acrescenta. Foi o caso da brasileira Zip.Net, especializada em informações e correio eletrônico – o popular e-mail. Aos 33 anos, Marcos Augusto de Moraes tornou-se um dos primeiros brasileiros milionários da internet ao vender seu negócio para o grupo Portugal Telecom Multimedia, em 2000. O serviço, que estava no mercado havia três anos, foi comprado por US$ 365 milhões. Vale lembrar, é mais do que os US$ 342 milhões que Rodrigues e seus sócios receberam pelo Buscapé, quase dez anos depois. A venda da Zip.Net dá a dimensão da euforia desmedida dos tempos pré-bolha. Tratava-se de uma empresa que jamais havia dado lucro (o Buscapé é rentável desde 2002) e que não era tão conhecida quanto o site que compara preços. Mesmo assim, acredite, Moraes embolsou uma bolada maior.

Fabiano Cerchiari/AG. ISTOé - DANIEL WAINSTEIN/AG.
Alexander Mandic: “No início não acreditei no potencial do modelo de negócios do Buscapé” Antes do estouro da bolha: Marcos Augusto de Moraes, do Zip.Net, foi um dos primeiros brasileiros milionários da internet

A nova onda de investimentos da internet dá sinais de mais maturidade. “Os valores continuam altos, mas os investimentos são focados em negócios mais pé no chão”, afirma Torquato. Para preservar a eficiência da empresa, a gestão do Buscapé será mantida. O valor recebido pela transação poderia proporcionar ao grupo de jovens empresários uma bela e precoce aposentadoria. No entanto, eles não estão dispostos a abandonar o barco. Nenhum executivo da Naspers ficará no Brasil. A diretoria atual será integralmente preservada. “O Buscapé tem a escala e a gestão necessárias para se tornar a âncora do e-commerce do grupo Naspers na América Latina”, disse à DINHEIRO Meloy Horn, diretor de relação com o investidor do Naspers. A estrutura do site permitirá à Naspers criar na região um tipo de operação que já possui na África do Sul e no Leste Europeu. Nessas regiões, tem presença significativa na área de comércio eletrônico, algo que pretende repetir na América Latina a partir da plataforma brasileira. O interesse da Naspers pelo País é antigo. Em setembro de 2008, adquiriu 49% de participação da Compera nTime, especializada em sistemas para celular. Em maio de 2006, desembolsou US$ 422 milhões para comprar 30% do capital da editora Abril. “Regiões menos maduras, como o Brasil, oferecem oportunidades únicas a serem exploradas”, ressalta Horn.

O preço alto da banda larga no Brasil é um dos desafios que os investidores enfrentam para ganhar dinheiro com a internet

A internet brasileira não voltou ao radar apenas dos grupos internacionais. A Oi anunciou recentemente um plano de negócios agressivo para o universo digital. Além de fornecer o acesso à rede a seus usuários, a operadora quer usar a internet como uma plataforma de distribuição de serviços de voz, tevê e música. “O envolvimento das empresas de telecom com a internet é inevitável”, afirma Pedro Ripper, diretor de novos negócios e estratégia da Oi. “Não tirar proveito da estrutura que temos para isso seria um erro.” Nessa perspectiva, a empresa irá unificar o serviço de tevê por assinatura com o Oi TV Móvel, para celulares. Além disso, transformará o portal IG em uma ferramenta convergente de mídias. “O IG nos permite chegar a geografias onde não temos acesso com a telefonia”, diz Ripper. A Oi não abre o investimento destinado ao projeto. Diz apenas que está dentro do bolo de R$ 5 bilhões que investe no País anualmente. Mas o modelo da internet brasileira continua a ser um desafio para os investidores. “O governo não valoriza a internet como prioridade para o futuro do País”, afirma Torquato. Além disso, a banda larga do Brasil ainda é uma das mais caras do mundo, graças principalmente à elevada carga tributária sobre o serviço. “Esse tipo de dificuldade faz com que o Brasil não desenvolva todo o seu potencial de empreendedorismo online”, diz Torquato. Mesmo assim, analistas apostam num futuro promissor para o setor no País. Para empresários como Romero Rodrigues, esse futuro já chegou. “Eu sempre soube que tinha ao meu lado um time campeão”, diz o empresário. “Agora mostrei ao mundo que eu estava certo.”

O Nobel da internet

O paulistano Romero Rodrigues franze a sobrancelha sempre que alguém lhe pergunta algo sobre economia. Não é a praia dele. Como engenheiro elétrico, tem vocação nata para tecnologia. No entanto, sua invenção – um comparador virtual de preços – equacionou uma das maiores falhas da economia de mercado: a assimetria da informação. O conceito pode parecer complexo, mas é relativamente simples. Exemplo: um empresário, quando fabrica um produto, tem muito mais informações sobre seu real valor do que seu cliente. E este só seria capaz de encontrar a melhor oferta se estivesse disposto a fazer uma extensa pesquisa de preços – o que, antes da internet, não ia além de um quarteirão. Daí a assimetria: quem sabe mais, lucra mais. Com um serviço como o Buscapé, o poder foi transferido do produtor para o consumidor.

Stiglitz: teoria criada pelo prêmio Nobel foi confirmada pelo escritório da Vila Olímpia, em São Paulo

O conceito de assimetria chegou até a render, em 2001, o Nobel de Economia ao americano Joseph Stiglitz, que foi braço direito do ex-presidente Bill Clinton. Stiglitz dedicou grande parte da carreira a estudar os impactos na economia do abismo de informações existente entre quem produz e quem compra. E os mercados mais competitivos, nos quais a assimetria é menor, tendem a ser mais eficientes e também menos inflacionários.

O foco das pesquisas acadêmicas de Stiglitz, que se transformou num negócio nas mãos de Romero Rodrigues, produziu uma das maiores transações já realizadas no e-commerce brasileiro: R$ 600 milhões. Muito? Em princípio parece, mas é pouco se comparado com o potencial de vendas que seu buscador virtual proporciona às empresas de comércio online.

A afirmação faz todo o sentido. No ano passado, 77% de todas as vendas nos Estados Unidos foram influenciadas pela internet – as compras foram efetivadas em lojas virtuais ou a rede mundial serviu como fonte de pesquisa. E esse movimento, ao que tudo indica, é um caminho sem volta. Cada vez mais, a internet se consolida como um aliado indispensável do consumidor. Por outro lado, as empresas estão empenhadas em se ajustar a essa nova realidade: precisam reduzir as margens e ganhar em volume.

Sobre assimetria da informação, Romero Rodrigues só ouviu falar. No entanto, sem que soubesse, ele ajudou a corrigir uma falha da economia de mercado e inventou um novo jeito de comprar e vender. O que começou como uma simples diversão, atacou um problema central da teoria econômica.

Hugo Cilo