O peso do nome

Fonte: Istoé Dinheiro
Por Carolina Guerra

Em 2006, a americana Black&Decker, conhecida principalmente por suas ferramentas e eletrodomésticos, resolveu trazer para o Brasil uma linha de metais sanitários e outra de fechaduras.

blackEm vez de vender o produto com sua própria marca, decidiu utilizar dois nomes diferentes (Geo Metais e o difícil de pronunciar Kwikset). Resultado: desconhecidos e sem uma grife forte que pudesse atrair consumidores, eles alcançaram apenas 1,4% das vendas totais da Black&Decker no País.

A empresa quer corrigir o erro. Os artigos continuam nas gôndolas, mas agora trazem a marca Black&Decker estampada com destaque.

“Mudamos nossa estratégia porque percebemos que a força do nome Black&Decker pode alavancar o desempenho desses produtos”, diz Paulo Fernando Martins, que há seis meses assumiu a presidência da empresa no Brasil.

Com faturamento de R$ 580 milhões a empresa vive o melhor momento de sua história no país

Apesar do ajuste, a empresa vai repetir a fórmula que consiste em testar outras marcas no País. A Black&Decker vai colocar no mercado brasileiro, até o final do ano, duas grifes que pertencem ao grupo: a Price Pfister, líder nos Estados Unidos em metais sanitários do segmento de luxo, e a Baldwin, especializada em produzir fechaduras e maçanetas de alto padrão.

“Estamos aproveitando o crescimento do segmento premium no Brasil para ver como essas novas marcas se encaixam no mercado”, afirma Martins. Por enquanto, a empresa não decidiu se vai associar seu nome a essa nova linha de artigos sofisticados. Isso porque, segundo o presidente da empresa, o consumidor de alto padrão já conheceria as marcas Price Pfister e Baldwin, nomes conhecidos na Europa e nos Estados Unidos.

Primeiro, a empresa quer, digamos, sentir o mercado. Para alguns especialistas, a estratégia é arriscada. “O risco de usar o mesmo nome para vários produtos é que a marca principal perca a percepção que o público tem dela”, afirma Fábio Fiorini, diretor-executivo da consultoria Net Branding.

A Black&Decker vive seu melhor momento no Brasil. A empresa viu seu faturamento saltar de R$ 413 milhões em 2007 para R$ 580 milhões em 2008. Segundo o presidente, a meta é crescer 8,5% em 2009. Isso se deve ao aumento expressivo de vendas de eletrodomésticos, que são o carro-chefe da companhia no País, respondendo por mais da metade de seu faturamento. “Por isso, um dos meus grandes desafios é equilibrar melhor as vendas por categoria de produtos”, afirma o executivo.

Deu no New York Times – Larry Rohter

Esse livro ficou famoso, pois é o autor que era correspondente do New York Times no Brasil e teve algum atrito com o presidente Lula. Mas não é esse o único tema desse livro. Esse livro é uma referência para os que querem conhecer mais sobre a cultura dos brasileiros em uma perspectiva de um “gringo” ou de uma pessoa de fora do Brasil.

capa - NY novo.aiPara que tenham uma idéia do livro, o autor descreve que jamais esquece um aviso que foi colocado em um restaurante em Copacabana: “É terminantemente proibido fazer batucada nas mesas, cantar ou tocar instrumentos musicais enquanto a clientela está comendo”. Diz o autor que somente no Brasil poderia existir uma situação como essa que ele presenciou. O autor é um daqueles correspondentes do NY Times no Brasil que descreve sobre diversas experiências sobre cultura, sociedade, Política, Amazônia, economia e outros tópicos diversos.

Em um artigo, “As exportações valiosas do Brasil se valem de escravos e terras arrasadas”, referente à Amazônia, o autor explica uma experiência do trabalho em regiões remotas da Amazônia. O autor critica duramente o sistema de trabalho utilizado. O autor ressalta que empresas moveleiras como Ethan Allen e a L. & J. G. Stickley dizem que Mogno vem de fornecedores que vem de práticas sustentáveis, porém compram matéria prima da região.

É um pouco do cuidado que temos que ter quando comunicamos responsabilidade social e sustentabilidade. Neste caso, a marca que adquire produtos de um sistema de produção com essas características é, sim, corresponsável.

Portanto, temos que entender que ao articularmos um posicionamento de marca, temos que verificar se em todos os relacionamentos com os públicos estratégicos, a marca deve ter sua proposta de valor bastante consistente. De nada adianta comunicar que é socialmente responsável se em todos os pontos de contatos a marca não tem este posicionamento. O que vai para a mídia é constantemente checada pelos públicos estratégicos e uma notícia dessas pode acabar com o posicionamento da marca.

Recomendo fortemente a leitura dessa obra para todas que estão envolvidos com branding e que querem ter a percepção de um “gringo ” que foi e é apaixonado pelo Brasil.

As Marcas – Jean-Noël Kapferer

O livro “As Marcas” é a referência primária dos cursos de MBA de Branding que leciono.

O Senhor Jean-Noël Kapferer é uma referência acadêmica e profissional quando se tratar do tema de branding.

70_As marcasA primeira parte do livro explica a importância do Branding nas organizações, partindo do conceito de que marcas são ativos intangíveis valiosos para empresas e que seu processo de gestão gera um substancial valor para os acionistas. Nesta primeira parte do livro o autor não se limita à indústria de bens de consumo, pois trata também a questão do branding  no segmento de marcas próprias, marcas de luxo e diversos outros setores e indústrias.

A segunda parte do livro aborda a conceito de identidade de marca e posicionamento de marca. Estes dois conceitos e dois capítulos talvez são no meu entendimento para  o conceito de branding e gestão de Marcas, por detalha um ferramenta que pode auxiliar muito a revelar uma identidade de marca que é o Prisma de Identidade.

A terceira parte diz respeito ao processo de criação e sustentabildade da marca no longo prazo.

O livro traz em detalhe todas as etapas sobre gestão de marca. O capítulo 8, em específico, se responsabiliza por trabalhar o lançamento de marca, passando por desafios de mercados maduros, o conceito de ciclo de vida de marca, brand life cicle, chegando até arquitetura de marcas e gestão multi-brand portfolios.

Além disso, o livro traz excelentes contribuições para o tema de reposicionamento de marcas e administração de mudanças de nomes (pós-aquisição) e gestão global de marcas.

A quarta e última etapa, diz respeito à avaliação financeira de marcas. Pois, ao final, para completar o ciclo, marcas geram valor ao acionista.

Existe a versão em português do livro (Terceira Edição – “As Marcas”), porém confesso que prefiro mais a quarta edição do livro (ainda somente em inglês – “The New Strategic Brand Management“). A razão de minha preferência é que a terceira edição traz muito exemplo de marcas francesas e quando muito europeias. Já a Quarta edição do livro traz exemplos de marcas globais. Isto faz uma certa diferença, principalmente se você não conhece profundamente as marcas Francesas.

Brand Failures – Matt Haig

Muito pensam que grandes marcas foram construídas através de um disciplinado processo ao longo do tempo. A grande maioria das marcas é fruto da ideologia de um fundador, que estruturou uma organização com pessoas alinhadas com seus princípios. A consistência desses valores junto aos públicos estratégicos gera uma percepção. Esta percepção são um reflexo da qualidade dos brand-equities.

brand failuresNeste processo de construção, obviamente, ocorreram falhas ao longo do tempo. O autor ilustra os 100 principais erros de marcas e dentre elas de empresas e marcas muito bem consolidadas.

Dentre eles, a destacar, está o New Coke. Em 1985 a Coca-Cola buscava um novo posicionamento inclusive mudando o sabor da Coca-Cola. Não preciso dizer que a campanha foi rapidamente abandonada e, em seguida, lançada a propaganda “Always Coca-Cola”.

Outro caso importante ressaltado é o da British Airways que em seu processo de branding definiu decorar as caudas das aeronaves com pintura de artistas plásticos de cada região atendida pela British. O único problema, mencionado pelo livro, era que essas pinturas substituíam a bandeira da Inglaterra, o que era um símbolo muito forte do povo britânico. Nossa colega Joanna Seddon, Executive Vice President da Millward Brown Optimor particupou do processo de retomada da identidade original e menciona que existiu um investimento bastante expressivo de repintar as caldas da aeronaves com a identidade original. É um caso definitivamente bastante controveso de Brand Failures que o leitor pode ter alguns detalhes interssantes nesta pulicação.

No Brand Failures são abordados outros inúmeros casos de insucessos que valem a pena um profissional de branding conhecer.

O VALOR DA MARCA IBOPE

Fonte: Ibope.com

Manter a relevância de uma marca num cenário de mudanças e quebra de paradigmas tão frequentes é certamente um enorme desafio que o IBOPE encara
cotidianamente. Marcas fortes podem ser os ativos mais valiosos de uma organização, e a marca IBOPE é particularmente valiosa. Um valor que demonstra a relevância e a solidez de uma empresa que está no mercado há mais de 65 anos. “A nossa marca é o nosso maior patrimônio”, declara Carlos Augusto Montenegro, presidente do Grupo IBOPE. “Ela representa toda uma história que está sendo escrita baseada em confiança, credibilidade, pioneirismo e prestígio de uma instituição sólida e integrada, independentemente do mercado ou da região em que está presente”, diz.
E por estar cada vez mais internacionalizada e sinalizar com planos para continuar sua expansão na Europa e nos Estados Unidos que a empresa vem continuamente investindo em ações para fortalecer cada vez mais esse ativo valioso. “Entender a essência e conhecer o valor da marca IBOPE foi um passo fundamental para referendar a importância de consolidar no mercado a imagem de uma empresa única, transmitindo os valores de tradição e idoneidade, com rígidos padrões de excelência em seus produtos e serviços”, afirma Rogerio Cajado, diretor corporativo do Grupo IBOPE.
Nesse sentido, um amplo trabalho de comunicação vem sendo conduzido nos
últimos quatro anos. Além de avaliar o valor da marca, por meio de um estudo
realizado pela consultoria global de marcas Interbrand, adotou-se o conceito do sistema monolítico para a logotipia que transmite força e abrangência para as empresas do Grupo e para seus produtos e serviços. O próximo passo foi o desenvolvimento do Manual de Identidade Visual (Miv), importante balizador de comunicação da empresa, que aborda questões variadas sobre o correto uso da marca, sua aplicabilidade, entre outros relevantes conceitos sobre a imagem do IBOPE.
Implantado recentemente pela área de comunicação institucional, todo esse trabalho foi baseado em uma pesquisa realizada com os principais públicos de
relacionamento da empresa. Detectou-se que o mercado já reconhecia os atributos
de imagem transmitidos pela marca que o IBOPE quer manter. Entre eles: tradição,
idoneidade, pioneirismo, confiança, profissionalismo e qualidade. “Esse resultado coloca a organização numa posição privilegiada”, afirma o presidente Montenegro. “O reconhecimento que a nossa marca possui é algo que muitas empresas têm o sonho de conquistar”, diz ele, referindo-se ao fato de a marca IBOPE ser verbete no dicionário brasileiro como sinônimo de prestígio e audiência, atributos inerentes ao negócio da empresa.

marca_id41197221_Manter a relevância de uma marca num cenário de mudanças e quebra de paradigmas tão frequentes é certamente um enorme desafio que o IBOPE encara cotidianamente. Marcas fortes podem ser os ativos mais valiosos de uma organização, e a marca IBOPE é particularmente valiosa. Um valor que demonstra a relevância e a solidez de uma empresa que está no mercado há mais de 65 anos. “A nossa marca é o nosso maior patrimônio”, declara Carlos Augusto Montenegro, presidente do Grupo IBOPE. “Ela representa toda uma história que está sendo escrita baseada em confiança, credibilidade, pioneirismo e prestígio de uma instituição sólida e integrada, independentemente do mercado ou da região em que está presente”, diz.

E por estar cada vez mais internacionalizada e sinalizar com planos para continuar sua expansão na Europa e nos Estados Unidos que a empresa vem continuamente investindo em ações para fortalecer cada vez mais esse ativo valioso. “Entender a essência e conhecer o valor da marca IBOPE foi um passo fundamental para referendar a importância de consolidar no mercado a imagem de uma empresa única, transmitindo os valores de tradição e idoneidade, com rígidos padrões de excelência em seus produtos e serviços”, afirma Rogerio Cajado, diretor corporativo do Grupo IBOPE.

Nesse sentido, um amplo trabalho de comunicação vem sendo conduzido nos últimos quatro anos. Além de avaliar o valor da marca, por meio de um estudo realizado pela consultoria global de marcas Interbrand, adotou-se o conceito do sistema monolítico para a logotipia que transmite força e abrangência para as empresas do Grupo e para seus produtos e serviços. O próximo passo foi o desenvolvimento do Manual de Identidade Visual (Miv), importante balizador de comunicação da empresa, que aborda questões variadas sobre o correto uso da marca, sua aplicabilidade, entre outros relevantes conceitos sobre a imagem do IBOPE.

Implantado recentemente pela área de comunicação institucional, todo esse trabalho foi baseado em uma pesquisa realizada com os principais públicos de relacionamento da empresa. Detectou-se que o mercado já reconhecia os atributos de imagem transmitidos pela marca que o IBOPE quer manter. Entre eles: tradição, idoneidade, pioneirismo, confiança, profissionalismo e qualidade. “Esse resultado coloca a organização numa posição privilegiada”, afirma o presidente Montenegro. “O reconhecimento que a nossa marca possui é algo que muitas empresas têm o sonho de conquistar”, diz ele, referindo-se ao fato de a marca IBOPE ser verbete no dicionário brasileiro como sinônimo de prestígio e audiência, atributos inerentes ao negócio da empresa.

Para o diretor-geral da consultoria BrandAnalytics, Eduardo Tomiya, a marca IBOPE materializa toda a sua história, desde a fundação, e sua logomarca tangibiliza o que está sendo construído. “A marca IBOPE tem DNA muito próprio” afirma. “E seus atributos são usufruídos por todas as empresas do Grupo”.

A marca de uma empresa manifesta-se e é percebida de diversas formas e por públicos diferenciados. No IBOPE, a excelência e a diversidade de seus produtos e serviços, assim como a competência de seus colaboradores, são indicadores decisivos na construção e manutenção da força da marca. “A empresa investe incansavelmente na inovação e na diversificação de seus produtos”, afirma Cajado.

De acordo com Tomiya, outro fator fundamental para o sucesso, principalmente para uma empresa do setor de serviços, é o respeito ao capital humano. “Pensar no IBOPE só no aspecto do conhecimento é muito pouco, é preciso ir além”, garante. E assim ocorre. A atuação da empresa é reconhecida pelo alto desempenho de seus profissionais, que atuam de maneira preparada e motivada para interagir com as questões mais relevantes do cenário nacional e latino-americano.

Segundo o presidente Montenegro, o que mais lhe chama a atenção é a capacidade de renovação e profissionalização do IBOPE. “Os novos desafios do mercado, ampliados pela convergência dos meios de comunicação e pela conectividade das pessoas, exigem de todos nós um exercício diário de renovação de ideias, de reflexão sobre o futuro e um novo olhar sobre nossos negócios, produtos e serviços”, diz. “Somos uma empresa multinacional brasileira, dinâmica e em constante evolução. Não há espaço para acomodação”.

Entrega de valor

O sucesso de marcas e empresas depende também da capacidade de entregar mais valor ao cliente. “Estamos na era da economia de valor, em que uma marca não pode se preocupar apenas com seu impacto sobre o consumidor, mas, sim, sobre a cadeia de valor inteira”, afirma Tomiya. Para o executivo, a comunicação tem o papel de potencializar todos os atributos que a empresa de fato pode entregar. “A imagem institucional pode gerar um valor bastante elevado para uma empresa e é fundamental ter diretrizes que orientem a aplicação da marca”, sentencia. Trabalhar isso é essencial”, garante. “Nosso desafio, a partir de agora, é manter a comunicação integrada e consistente com o seu posicionamento e seus atributos, orquestrando todas as ferramentas de construção da marca para otimizar verbas e mostrar uma mensagem clara na mente de nossos clientes, colaboradores, fornecedores e sociedade”, conclui Cajado.

Yes, a Petrobras também é minha

Fonte: Revista Exame
Por Giuliana Napolitano

O carioca Alexandre Quintão, coordenador da área de relações com investidores da Petrobras, teve recentemente uma inusitada demonstração do novo status da economia brasileira — e de sua principal empresa. Quintão desembarcou no aeroporto JFK, de Nova York, às 6 da manhã do dia 14 de setembro para acompanhar o presidente da companhia, José Sérgio Gabrielli, numa série de reuniões com investidores. No guichê da imigração, ele mal teve tempo de explicar ao oficial a razão de sua visita aos Estados Unidos. Disse apenas que trabalhava na maior companhia brasileira de petróleo e foi interrompido pelo funcionário da imigração. “Na Petrobras?”, perguntou o americano. Meio perplexo, Quintão só teve tempo de dizer “sim” — para então ouvir uma entusiasmada demonstração de conhecimento sobre as descobertas do pré-sal. “Ele se disse impressionado com as notícias”, diz Quintão. “O contraste com o que acontecia antes é grande. Há alguns anos, muitos investidores estrangeiros não sabiam o que era aPetrobras. Várias vezes ouvi de gente graúda do mercado: ‘Petrowhat?’”

tab_financas_bolsa1_gO oficial da Alfândega é apenas mais um da crescente legião de americanos interessados na Petrobras — e também em outras empresas brasileiras. Vale e Petrobras já estão entre as 35 companhias mais negociadas da bolsa de Nova York, acima de ícones como Coca-Cola e Visa. As duas têm hoje mais de 400 000 acionistas nos Estados Unidos — um número impressionante, que equivale a um terço do total de investidores que elas mantêm aqui. São pessoas como Michael Crawford, de 28 anos, acionista das duas companhias brasileiras há dois anos. “Até 2007, o Brasil não me dizia nada. De lá para cá, passei a receber muitos relatórios de bancos e corretoras falando bem da economia e das empresas do país. Hoje, acredito que, no mundo emergente, a Petrobras e a Vale, são as duas companhias mais promissoras e, por isso, vou aplicar mais nelas”, diz ele, que é diretor do Investor Relations Group, firma com sede em Nova York que assessora empresas de capital aberto. Em escala menor, outras companhias do país, como CSN e AmBev, também têm avançado no mercado americano. “O Brasil de fato mudou de patamar graças à evolução da economia e da qualidade de suas empresas”, diz Scott Cutler, vice-presidente da bolsa de Nova York (ou Nyse, na sigla em inglês).

Mais que uma informação curiosa, o fato de as empresas brasileiras terem cada vez mais investidores lá fora é algo estratégico. Uma parcela dos estrangeiros não pode ou não está disposta a encarar a burocracia de abrir uma conta no Brasil para aplicar diretamente na Bovespa. Isso tem levado várias companhias locais a lançar papéis (batizados de ADRs) na bolsa de Nova York para conseguir atrair mais acionistas. “Quando fazíamos apresentações internacionais, vários investidores, especialmente os fundos soberanos da Ásia e do Oriente Médio, diziam que só não aplicavam nas nossas ações porque não tínhamos papéis ADRs”, diz Marco Geovanne, executivo da área de relações com investidores do Banco do Brasil, que foi autorizado em setembro pelo governo a ser listado na bolsa americana, o que deve ocorrer em 2010. O BB segue o caminho de Bradesco e Itaú, que são listados lá fora desde o início da década, e também do Santander, que vai emitir ações de sua operação brasileira tanto na Bovespa como na bolsa de Nova York, no que pode ser a maior operação de mercado de capitais do ano no mundo. Somadas às companhias de outros setores, mais da metade de todos os negócios com ações de empresas brasileiras hoje ocorre no mercado americano.

Ao atrair mais investidores, as empresas brasileiras podem estar pavimentando o caminho para captar ainda mais recursos no futuro. Possuir ações muito negociadas é crucial para negócios que pretendem se financiar usando a bolsa, especialmente lá fora. Os fundos de pensão e outros gigantes institucionais só investem em papéis com um volume mínimo de transações por dia, para garantir que conseguirão comprá-los e vendê-los com facilidade. “Senão, toda vez que eles decidem negociar os papéis acabam interferindo no preço e, dependendo do caso, perdem dinheiro”, diz Edward Kuczman, analista da Van Eck, firma americana de investimentos que atende clientes institucionais. Daí a importância de avançar no ranking das ações mais negociadas. Hoje, o Brasil já é o segundo país em termos de movimentação de ações em Nova York, atrás apenas dos Estados Unidos.

tab_financas_bolsa2_gDezenas de estudos internacionais mostram que ter ações num grande mercado global pode trazer vantagens para as companhias. Um dos principais trabalhos, feito pelo professor René Stulz, da Universidade de Ohio, diz que a presença internacional pode reduzir os custos de captação de dinheiro. Não se trata, ele ressalva, de algo que ocorre da noite para o dia. “É preciso, primeiro, que as empresas consolidem uma base de acionistas globais”, diz Stulz. Uma vez conquistado esse portfólio de investidores, fica mais barato levantar capital. A Gafisa é um exemplo de como a expansão lá fora pode vitaminar os negócios. Se não tivesse decidido lançar ações na bolsa de Nova York em 2007, pouco depois de sua abertura de capital na Bovespa, a incorporadora provavelmente não teria conseguido levantar os quase 500 milhões de reais obtidos em Nova York que a ajudaram a duplicar seu volume de lançamentos e a comprar a antiga concorrente na baixa renda, a Tenda. “Hoje, embora não sejamos a maior incorporadora do país, temos as ações mais negociadas do mercado”, diz Alceu Duílio Calciolari, vice-presidente de finanças e de relações com investidores da Gafisa.

Lançar e manter ações na bolsa em Nova York, porém, é um processo caro. Estima-se que as empresas gastem, por ano, cerca de 2 milhões de dólares só para cumprir as exigências da temida lei contábil americana, a Sarbanes-Oxley — fora o pagamento das taxas normais cobradas pela bolsa. Tudo somado, é mais que o dobro do que se gasta aqui. “Não existe almoço grátis”, diz Roberto Castello Branco, diretor de relações com investidores da Vale. Essa é uma das razões que explicam por que apenas as companhias brasileiras de grande porte são listadas lá fora — são apenas 31 empresas, que movimentam grandes somas de dinheiro. Para as demais, resta como consolo o salto de qualidade da Bovespa nos últimos anos. De um mercado essencialmente local, com base numa regulação vista como frouxa, a bolsa paulista passou por um processo de modernização e avanço regulatório na última década, que incluiu a criação do Novo Mercado, um segmento que reúne empresas com alto nível de governança corporativa. O melhor reflexo dos resultados desses progressos foram as 170 aberturas de capital e as ofertas de ações que ocorreram na bolsa de 2004 para cá — e que tiveram, entre os compradores, 70% de investidores internacionais.

Um dos grandes projetos da Bovespa é atrair mais estrangeiros para o mercado local. Há poucos meses, os novos executivos da bolsa iniciaram uma ofensiva internacional. Estão sendo negociadas parcerias com a Nasdaq, dos Estados Unidos, e com mercados de ações na América Latina para permitir que os investidores desses países comprem papéis na Bovespa por meio de suas corretoras locais. A bolsa também ampliou seus escritórios em Xangai e Nova York e está abrindo um em Londres. “Isso é muito melhor para as empresas, que ficam no próprio mercado e têm condições de conhecer melhor seus investidores”, diz Paulo Oliveira Jr., diretor executivo da BM&FBovespa (que, aliás, não tem ações em Nova York). “Hoje, a Bovespa é uma das poucas bolsas do mundo procuradas pelos estrangeiros, mais que qualquer mercado da América Latina e mesmo de parte dos europeus. Nossa meta é ampliar isso.”

A bolsa nega, mas comenta-se que a motivação desse movimento seja contra-atacar Wall Street. “É lógico que existe uma competição por empresas e investidores”, diz um ex-executivo da Bovespa. A Nyse, por sua vez, não está só assistindo aos planos da Bovespa: neste ano, Scott Cutler, responsável pela listagem de empresas na bolsa americana, já esteve três vezes no Brasil — e, na última delas, em agosto, trouxe o presidente da bolsa, Duncan Niederauer, para visitar companhias e investidores em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. Seu objetivo é manter em crescimento o número de empresas brasileiras em Nova York. A primeira, a Aracruz, estreou lá em 1995 — hoje, são 31.

É cedo para dizer quais podem ser os resultados do pretendido avanço da Bovespa lá fora. A bolsa já tentou fechar uma parceria com o mercado do México no passado, mas o projeto naufragou por falta de aprovação dos órgãos reguladores. O que parece um caminho sem volta é a exposição que as empresas brasileiras vêm conseguindo no exterior. Companhias como ValePetrobras, Bradesco e Itaú Unibanco realizam em torno de 30 eventos com investidores no exterior por ano — fora as visitas que elas recebem aqui. É possível que Michael Crawford, o americano que investe em Vale e Petrobras, seja um desses visitantes em breve. “Nunca fui ao Brasil, mas quero ver de perto como funciona essa economia que está numa fase tão diferente da americana”, diz. Ele vai ter de se explicar na imigração, mas é improvável que não seja bem-vindo.

As lições de Branson

Fonte: Istoé Dinheiro
Por José Sergio Osse

Richard Branson, o bilionário britânico que criou o conglomerado Virgin, é um palhaço. Pelo menos é o que ele diz a respeito de si próprio. “Uma das táticas que usei para chamar a atenção dos grandes concorrentes foi me fazer de palhaço”, disse ele com exclusividade à DINHEIRO, numa raríssima entrevista concedida a uma publicação brasileira. Branson é a personificação da importância da imagem no capitalismo do século 21. Para fazer barulho, vestiuse de noiva antes de inaugurar uma loja, fez rapel num prédio em Londres ao anunciar sua nova empresa de telefonia celular e deixou-se fotografar nu em pelo em uma praia do Caribe.

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“Para chamar a atenção e enfrentar os grandes, me disseram que o ideal seria bancar o palhaço. É isso o que tenho feito há muito tempo”

Desde seu primeiro negócio (a revista Student Magazine, lançada quando tinha apenas 16 anos), Branson construiu uma trajetória impressionante. Foi com uma loja de discos e uma gravadora que seu império surgiu. Na década de 70, após ser preso por vender discos pelo correio e violar leis fiscais da Inglaterra, Branson abriu a primeira loja da Virgin, que mais tarde se tornaria uma rede e daria origem à gravadora Virgin Records. Em 1984, deu o primeiro passo para se tornar o multiempresário. Naquele ano, penhorou casa, carro e gastou todas as suas economias para criar a Virgin Atlantic Airways, uma companhia aérea cujo objetivo era brigar com a poderosa British Airways.

Branson sempre foi obcecado por holofotes. Uma das formas que encontrou de chamar a atenção foi tentar quebrar recordes mundiais. Sua primeira aventura do gênero foi em 1985, quando tentou cravar o recorde de velocidade, por barco, da travessia do Atlântico Norte. Depois que sua lancha virou em alto-mar, ele teve de ser resgatado por helicópteros da Força Aérea britânica. A ampla cobertura do evento – e principalmente do resgate – provou que o caminho era aquele. Nos anos que se seguiram, Branson construiu um conglomerado que fatura US$ 17 bilhões e reúne mais de 250 empresas, com atuação em setores tão diversos quanto serviços financeiros, telefonia celular e aviação. Sua fórmula de sucesso? Descubra na entrevista a seguir.

DINHEIRO – Como é possível fazer sucesso em áreas tão diferentes quanto aviação, telefonia celular e serviços financeiros, para citar só algumas?
Richard Branson – Uma das razões do nosso sucesso é que, na Virgin, somos permanentemente guiados por nossos valores. Por valores, entendase oferecer serviços de qualidade e acessíveis, de forma inovadora e em áreas nas quais possamos desafiar a estagnação do mercado.

“Eu realmente tenho que me beliscar quando estou em Necker Island, minha casa nas lindas Ilhas Virgens Britânicas. Até hoje eu não consigo acreditar que ela é minha”

DINHEIRO – Qual é o segredo para conseguir fazer tudo isso e, ainda assim, se divertir no processo?
Branson – Antes de tudo, as coisas têm que começar com a sua atitude. Você precisa ter habilidade para ouvir outras pessoas e não ter um ego muito inflado. Em outras palavras: você precisa reconhecer quando as sugestões das outras pessoas são melhores do que as suas. Nunca fui orgulhoso a ponto de não aceitar que estou errados. Tenho sido abençoado por ter as pessoas certas à minha volta, que amam a Virgin tanto quanto eu. Essa paixão tem ajudado a Virgin a crescer tremendamente. Se você ama o que faz, isso o motiva a ter sucesso. Uma dica: divirta-se e não se leve tão a sério, pois do contrário um eventual tombo será muito pior. Ah, e uma outra coisa: os caras grandes… Nunca tenha medo de encará-los.

DINHEIRO – Além de encarar os caras grandes, que outros ingredientes contribuem para o sucesso de uma empresa?
Branson – Você precisa ter toneladas de confiança, tanto em si próprio quanto nas pessoas que o cercam. Não tenha medo de assumir riscos. Minha mãe (Eve Branson) sempre me disse: “Se você falhar, considere isso apenas como um aprendizado e toque em frente com ainda mais motivação e determinação.” Entrar em novos mercados com novos produtos e serviços é muito natural para mim e para muitos outros empreendedores que cuidam dos negócios da Virgin em todo o mundo. Tenha sempre um monte de ideias e incentive seus funcionários a fazer o mesmo. Não importa se metade dessas ideias é ruim. O fundamental é ser criativo. Lembre-se: às vezes você erra, mas, quando acerta, não há nada no mundo que seja melhor do que esse sentimento. Por isso, entre de cabeça em tudo o que for fazer. Afinal, o que você tem a perder?

Multiempresário: companhia aérea , loja de CDs e aviões experimentais fizeram a fama de Branson “Divirta-se e não se leve
tão a sério. Do contrário, um
eventual tombo será muito pior”

DINHEIRO – Qual é a importância para uma companhia ter um líder carismático como o sr.? Como isso ajuda a Virgin a ser reconhecida e obter resultados?
Branson – Há 25 anos, quando abri a Virgin Atlantic Airways, me tornei amigo do falecido Freddie Laker (fundador da britânica Laker Airways), um homem carismático, corajoso e modesto. E ele me deu esse conselho: “Você nunca terá o poder publicitário necessário para vender mais que a British Airways. Você terá que ir à luta e usar a si mesmo. Talvez tenha até que se fazer de palhaço para sobreviver.” Pois bem, como muita gente já percebeu, tenho me feito de palhaço desde então. E não me arrependo.

DINHEIRO – Como a Virgin se preparou para enfrentar a crise financeira?
Branson – Não acredito que alguém pudesse ter previsto essa crise financeira ou imaginado o efeito que teria sobre a economia global. Por isso, como tantas outras companhias, a Virgin tem trabalhado duro para assegurar que nossos negócios estejam robustos e prontos para se adaptar às mudanças. Obviamente, nesse ambiente de preocupação o crédito ficou muito mais difícil e, como consequência, passou a ser vital desenvolver negócios que possam se autofinanciar. Aliás, foi o que fiz com meu primeiro negócio, a Student Magazine. Eu não tinha dinheiro nenhum, mas consegui vender um número suficiente de anúncios que me permitiu cobrir as despesas de papel e impressão antes de lançar a revista. Eu sou o exemplo vivo de que existem formas de financiar um negócio sem necessariamente ter que emprestar dinheiro de alguém para torná-lo realidade.

“Minha mãe me disse: ‘Se você falhar, considere isso um aprendizado e siga em frente com mais motivação’”

DINHEIRO – Entre todos os negócios que levam a marca Virgin, qual foi o mais difícil de criar e transformar em uma companhia bem-sucedida?
Branson – Nunca é fácil criar nenhum tipo de negócio e, por isso mesmo, todas as nossas empresas tiveram que superar desafios. Mas tudo se resume a ter determinação, motivação e amor naquilo que você faz. Houve momentos em que pensei que a companhia toda iria para o ralo, especialmente no começo.

DINHEIRO – Que momentos?
Branson – Quando lancei a Virgin Airlines, eu coloquei minha casa, meu carro e todas as poucas economias que tinha em risco. E não esqueça que estava fazendo tudo isso para competir com a British Airlines, a maior companhia aérea do Reino Unido. Os riscos eram enormes, mas nunca pensei que estivesse fazendo a coisa errada. Mesmo nos momentos de dificuldade, eu e as pessoas ao meu redor acreditávamos 100% que poderíamos fazer da Virgin Atlantic um sucesso. Olhe para nós agora.

“Passei por momentos assustadores ao criar empresas de áreas tão diferentes quanto de trens e aviões. Mas nunca deixei de acreditar no sucesso”

DINHEIRO – Vamos inverter a pergunta. Qual foi, entre todos os seus negócios, o mais divertido de criar?
Branson – Todos eles, da empresa ferroviária à companhia aérea. E não estou falando por falar. Tive momentos difíceis e assustadores. Afinal, enfrentar indústrias gigantes como as de serviços financeiros e de telefonia móvel não foi nada fácil. Mas, no geral, posso assegurar que me diverti muito ao longo do caminho. A Virgin tem tudo a ver com seus funcionários. Acredite: esse pessoal sabe se divertir

DINHEIRO – Em que momento da sua vida o sr. teve a certeza de que tinha alcançado o sucesso? Foi quando checou sua conta bancária?
Branson – Minha vida certamente não foi direcionada para alcançar riqueza ou qualquer tipo de sucesso pessoal num nível material. Sempre fui motivado pelo desafio, pelo desejo de aprender novas coisas todos os dias, descobrir lugares diferentes, conhecer pessoas diferentes. Não sou muito ligado em carros, pinturas caras ou moda. Mas eu realmente tenho que me beliscar quando estou em Necker Island, minha casa nas lindas Ilhas Virgens Britânicas (o paraíso, de 300 mil metros quadrados, está avaliado em US$ 10 milhões). Até hoje eu não consigo acreditar que ela é minha.

DINHEIRO – Por que ir para o espaço? Essa é sua forma de dizer que o céu não é o limite? Branson – Por que não ir para o espaço? Tudo começou em 1969, na casa da minha família na Inglaterra, com meus pais e minhas duas irmãs assistindo às imagens ao vivo dos astronautas viajando para outros mundos. Isso me enfeitiçou e desde então minha determinação sempre foi um dia seguir seus passos no espaço. Esse sonho em breve vai se tornar uma realidade. Com o trabalho de pessoas extraordinárias, a Virgin Galactic em breve vai decolar, levando pessoas das mais diferentes origens para o espaço. Quase não consigo esperar.

DINHEIRO – A morte de Steve Fossett (aventureiro americano que desapareceu há dois anos em um acidente de avião) mudou de alguma forma os planos do sr. no que diz respeito a novas aventuras?
Branson – Steve Fossett foi um homem extraordinário e um dos grandes aventureiros de nosso tempo. Pessoalmente, perdi um amigo muito querido, com o qual compartilhei muitas e sensacionais experiências. O mundo perdeu uma verdadeira fonte de inspiração. Aprendi muito com Steve e sinto profundamente sua falta. Mas eu tentarei sempre quebrar recordes, fazer algo diferente, buscar coisas jamais tentadas. Aliás, você mesmo deveria tentar quebrar um recorde, para provar ao mundo que isso pode ser feito. E não é apenas uma questão de marketing. Você teria que ser muito maluco para colocar sua vida em risco se o motivo for apenas esse. É algo muito maior.

DINHEIRO – Em que tipo de negócio o sr. gostaria de investir?
Branson – Sou apaixonado pelo meio ambiente. Há alguns anos, decidi investir no setor de transportes para tentar desenvolver combustíveis limpos. Essa é uma área na qual vamos nos concentrar daqui para a frente. Sempre estou aberto para novas oportunidades. Na Virgin, somos conhecidos por agitar o mercado, por oferecer algo absolutamente novo para o consumidor. E uma das novas fronteiras é justamente o meio ambiente.

DINHEIRO – Quais são os planos da Virgin para o Brasil? A companhia pretende trazer os aviões da Virgin Atlantic para cá?
Branson – Essa pergunta é uma pegadinha? O Brasil tem toneladas de sex appeal. Estamos sempre procurando formas de expandir os negócios da Virgin em novos territórios. Então, fique de olho.

Uma festa de R$ 600 milhões

Fonte: Istoé Dinheiro
Por Roberta Namour e Claudio Gatti (foto)

Durante dois dias, o celular de Romero Rodrigues tocou ininterruptamente. Do outro lado da linha, cumprimentos calorosos, vindos até de velhos rivais. Cada vez que atendia às ligações, a euforia era a mesma. O peito estufado de satisfação, a risada nada contida. Rodrigues completou 32 anos na quinta-feira 1º. Mas a alegria não se deve apenas à comemoração do aniversário. No dia anterior, 30 de setembro, sua empresa fechou uma das maiores negociações da história da internet brasileira. É a mais relevante, pelo menos, desde o estouro da bolha, no início do século. O Buscapé, site de comparação de preços que ele criou em 1999 com três amigos, recebeu US$ 342 milhões por 91% de suas ações, o equivalente a cerca de R$ 600 milhões. “Até agora não me dei conta do que isso representa”, diz Rodrigues, que ocupa o cargo de presidente do Buscapé. Ele pode estar atônito de felicidade – e talvez só daqui a alguns dias possa dimensionar o que o negócio significa – mas até a concorrência já tem na ponta da língua um palpite. “A operação projeta o Brasil de volta ao radar de grandes investidores globais”, afirma Rodin Spielmann, diretor de Relações com Investidores da Ideiasnet. A cifra, digna de transações de países desenvolvidos, é vista por analistas do mercado como o início de uma nova onda de investimentos na internet. “A diferença é que, desta vez, o mercado está mais desenvolvido e os negócios, mais estruturados”, acrescenta Spielmann. A oferta milionária veio da sulafricana Naspers – maior grupo de mídia da África. A companhia, dona de 30% da Editora Abril, comprou a parte do fundo Great Hill Parners, até então sócio majoritário do Buscapé, e a fatia de cinco dos nove sócios minoritários. Foi nesse clima festivo que Romero Rodrigues, Rodrigo Borges e Ronaldo Takahashi, fundadores do site, e Rodrigo Guarino, fundador do Bondfaro, concorrente adquirido três anos antes, receberam a equipe da DINHEIRO, quinta-feira da semana passada. O encontro foi realizado no escritório da empresa na Vila Olímpia, em São Paulo.

Junho de 1999: formação original da equipe do Buscapé, com o estudante de administração Mario Letelier (primeiro à direita)

Com um sorriso contagiante, de jeans e camiseta, Romero Rodrigues abre as portas do escritório se desculpando pelo atraso. Perdeu a hora ao receber dos pais uma cesta de café da manhã em comemoração ao seu aniversário. No local, os outros três sócios o aguardam com ansiedade para apagar as velinhas de uma festa improvisada. O bolo ficou pequeno para os 350 funcionários que hoje integram a equipe. Há nove anos, naquele mesmo lugar, o grupo se resumia a pouco mais de uma dezena de pessoas. No ambiente, que atualmente abriga uma tevê gigante com videogame ligado e um hockey de mesa (jogo de mesa comum em bufé infantil), ficava apenas um computador e um beliche. A cama de dois andares era usada em esquema de revezamento durante as muitas madrugadas viradas na programação do site. Um ano antes disso, as reuniões eram feitas em casa, pelo ICQ, ferramenta de comunicação pela internet, anterior ao MSN. “Trabalhávamos de madrugada para economizar com a tarifa da internet”, lembra Ronaldo Takahashi. Na época, o acesso à rede era discado e a tarifa telefônica, mais barata depois da meia-noite. Os criadores do Buscapé eram estudantes e estagiários da Poli, faculdade de engenharia da Universidade de São Paulo, e tinham renda mensal de R$ 300 cada um.

O Buscapé foi a terceira tentativa empreendedora do grupo de jovens. Antes trabalharam na criação de um software para uma empresa de logística. A ideia de fazer um site de comparação de preços aconteceu por acaso. Rodrigo Borges queria comprar uma impressora pela internet, mas não conseguiu fazer uma pesquisa por falta de informações disponíveis na rede. O empecilho se tornou uma oportunidade de negócios. “Era só uma brincadeira. Decidimos apostar nela”, lembra Rodrigues. O investimento inicial de cada um foi de R$ 100 para pagar a hospedagem do site e a conta do celular. “Eu nunca acreditei no Buscapé, mas eles conseguiram transformá-lo no melhor negócio do mundo”, afirma Alexander Mandic, o precurssor da internet no Brasil. Atualmente, o site possui mais de 600 mil lojas cadastradas e recebe a visita de 62 milhões de usuários por mês (leia quadro).

De acordo com os especialistas, o estouro da bolha da internet expulsou do mercado as empresas que tinham projetos menos viáveis

Os jovens empreendedores não sabiam que seria tão difícil convencer os varejistas a disponibilizar a lista de seus preços. A equipe chegou a ser ameaçada pelo advogado de uma grande rede de varejo, contrariada por ter sido citada no Buscapé. A empresa queria que suas ofertas fossem removidas da página. Pouco tempo depois, o site passaria a cobrar uma taxa por clique efetuado pelos internautas em seus produtos. A varejista em questão foi retirada do site por não ter concordado com o esquema de cobrança. “No dia seguinte o mesmo advogado ligou dizendo que ia me processar se não voltasse a publicar suas ofertas”, afirma Rodrigues.

Esse não foi o único obstáculo que a equipe do Buscapé teve de enfrentar. “Chegamos a ficar nove meses sem retirar o salário, com medo de não conseguir sobreviver à crise que se alastrou pela rede”, lembra Rodrigo Borges. O Buscapé foi criado um ano antes do chamado estouro da bolha na internet, em 2000. Depois de um período de euforia, muitos investimentos milionários acabaram se transformando em enormes prejuízos. Com isso, os negócios rarearam e as dúvidas sobre a viabilidade financeira de empresas ligadas à internet passaram a ser cada vez maiores. “Não foi a internet que estourou e sim o modelo de fazer negócios”, lembra o especialista em economia digital Cid Torquato. “A bolha expulsou quem tinha projetos menos viáveis”, acrescenta. Foi o caso da brasileira Zip.Net, especializada em informações e correio eletrônico – o popular e-mail. Aos 33 anos, Marcos Augusto de Moraes tornou-se um dos primeiros brasileiros milionários da internet ao vender seu negócio para o grupo Portugal Telecom Multimedia, em 2000. O serviço, que estava no mercado havia três anos, foi comprado por US$ 365 milhões. Vale lembrar, é mais do que os US$ 342 milhões que Rodrigues e seus sócios receberam pelo Buscapé, quase dez anos depois. A venda da Zip.Net dá a dimensão da euforia desmedida dos tempos pré-bolha. Tratava-se de uma empresa que jamais havia dado lucro (o Buscapé é rentável desde 2002) e que não era tão conhecida quanto o site que compara preços. Mesmo assim, acredite, Moraes embolsou uma bolada maior.

Fabiano Cerchiari/AG. ISTOé - DANIEL WAINSTEIN/AG.
Alexander Mandic: “No início não acreditei no potencial do modelo de negócios do Buscapé” Antes do estouro da bolha: Marcos Augusto de Moraes, do Zip.Net, foi um dos primeiros brasileiros milionários da internet

A nova onda de investimentos da internet dá sinais de mais maturidade. “Os valores continuam altos, mas os investimentos são focados em negócios mais pé no chão”, afirma Torquato. Para preservar a eficiência da empresa, a gestão do Buscapé será mantida. O valor recebido pela transação poderia proporcionar ao grupo de jovens empresários uma bela e precoce aposentadoria. No entanto, eles não estão dispostos a abandonar o barco. Nenhum executivo da Naspers ficará no Brasil. A diretoria atual será integralmente preservada. “O Buscapé tem a escala e a gestão necessárias para se tornar a âncora do e-commerce do grupo Naspers na América Latina”, disse à DINHEIRO Meloy Horn, diretor de relação com o investidor do Naspers. A estrutura do site permitirá à Naspers criar na região um tipo de operação que já possui na África do Sul e no Leste Europeu. Nessas regiões, tem presença significativa na área de comércio eletrônico, algo que pretende repetir na América Latina a partir da plataforma brasileira. O interesse da Naspers pelo País é antigo. Em setembro de 2008, adquiriu 49% de participação da Compera nTime, especializada em sistemas para celular. Em maio de 2006, desembolsou US$ 422 milhões para comprar 30% do capital da editora Abril. “Regiões menos maduras, como o Brasil, oferecem oportunidades únicas a serem exploradas”, ressalta Horn.

O preço alto da banda larga no Brasil é um dos desafios que os investidores enfrentam para ganhar dinheiro com a internet

A internet brasileira não voltou ao radar apenas dos grupos internacionais. A Oi anunciou recentemente um plano de negócios agressivo para o universo digital. Além de fornecer o acesso à rede a seus usuários, a operadora quer usar a internet como uma plataforma de distribuição de serviços de voz, tevê e música. “O envolvimento das empresas de telecom com a internet é inevitável”, afirma Pedro Ripper, diretor de novos negócios e estratégia da Oi. “Não tirar proveito da estrutura que temos para isso seria um erro.” Nessa perspectiva, a empresa irá unificar o serviço de tevê por assinatura com o Oi TV Móvel, para celulares. Além disso, transformará o portal IG em uma ferramenta convergente de mídias. “O IG nos permite chegar a geografias onde não temos acesso com a telefonia”, diz Ripper. A Oi não abre o investimento destinado ao projeto. Diz apenas que está dentro do bolo de R$ 5 bilhões que investe no País anualmente. Mas o modelo da internet brasileira continua a ser um desafio para os investidores. “O governo não valoriza a internet como prioridade para o futuro do País”, afirma Torquato. Além disso, a banda larga do Brasil ainda é uma das mais caras do mundo, graças principalmente à elevada carga tributária sobre o serviço. “Esse tipo de dificuldade faz com que o Brasil não desenvolva todo o seu potencial de empreendedorismo online”, diz Torquato. Mesmo assim, analistas apostam num futuro promissor para o setor no País. Para empresários como Romero Rodrigues, esse futuro já chegou. “Eu sempre soube que tinha ao meu lado um time campeão”, diz o empresário. “Agora mostrei ao mundo que eu estava certo.”

O Nobel da internet

O paulistano Romero Rodrigues franze a sobrancelha sempre que alguém lhe pergunta algo sobre economia. Não é a praia dele. Como engenheiro elétrico, tem vocação nata para tecnologia. No entanto, sua invenção – um comparador virtual de preços – equacionou uma das maiores falhas da economia de mercado: a assimetria da informação. O conceito pode parecer complexo, mas é relativamente simples. Exemplo: um empresário, quando fabrica um produto, tem muito mais informações sobre seu real valor do que seu cliente. E este só seria capaz de encontrar a melhor oferta se estivesse disposto a fazer uma extensa pesquisa de preços – o que, antes da internet, não ia além de um quarteirão. Daí a assimetria: quem sabe mais, lucra mais. Com um serviço como o Buscapé, o poder foi transferido do produtor para o consumidor.

Stiglitz: teoria criada pelo prêmio Nobel foi confirmada pelo escritório da Vila Olímpia, em São Paulo

O conceito de assimetria chegou até a render, em 2001, o Nobel de Economia ao americano Joseph Stiglitz, que foi braço direito do ex-presidente Bill Clinton. Stiglitz dedicou grande parte da carreira a estudar os impactos na economia do abismo de informações existente entre quem produz e quem compra. E os mercados mais competitivos, nos quais a assimetria é menor, tendem a ser mais eficientes e também menos inflacionários.

O foco das pesquisas acadêmicas de Stiglitz, que se transformou num negócio nas mãos de Romero Rodrigues, produziu uma das maiores transações já realizadas no e-commerce brasileiro: R$ 600 milhões. Muito? Em princípio parece, mas é pouco se comparado com o potencial de vendas que seu buscador virtual proporciona às empresas de comércio online.

A afirmação faz todo o sentido. No ano passado, 77% de todas as vendas nos Estados Unidos foram influenciadas pela internet – as compras foram efetivadas em lojas virtuais ou a rede mundial serviu como fonte de pesquisa. E esse movimento, ao que tudo indica, é um caminho sem volta. Cada vez mais, a internet se consolida como um aliado indispensável do consumidor. Por outro lado, as empresas estão empenhadas em se ajustar a essa nova realidade: precisam reduzir as margens e ganhar em volume.

Sobre assimetria da informação, Romero Rodrigues só ouviu falar. No entanto, sem que soubesse, ele ajudou a corrigir uma falha da economia de mercado e inventou um novo jeito de comprar e vender. O que começou como uma simples diversão, atacou um problema central da teoria econômica.

Hugo Cilo

Que história é essa de branding?

Por André Galiano

O meio empresarial adora termos técnicos. É benchmark disso, audit daquilo. Quando o termo assume sentido amplo e é usado para designar mais de uma coisa fica ainda mais interessante – e difícil de entender o que realmente estão querendo dizer. Então que história é essa de branding?

marcas

Primeiro: não é um termo novo e embora os acadêmicos se esforcem para encontrar uma definição comum, ainda é usado no mercado de diversas maneiras, muitas vezes até confusas. Com base em sua tradução literal, branding é o processo de marcar. Ou deixar uma marca. Simples. Então fica a pergunta: marca, o que é?

Antes de complicar mais, vamos olhar para casos típicos:

i) Contratei um designer para mudar meu logotipo.
ii) Contratei uma agência de publicidade pra fazer a comunicação da minha empresa.
iii) Fechei uma cota de patrocínio num evento.

Isto é branding? A resposta é não e sim.

Por que não? Porque marca não é logo, comunicação ou qualquer outro tipo de ativação. Marca é o reflexo da cultura de uma empresa vista sob a perspectiva de todos seus públicos. Isto é, não é o que nós estamos dizendo para eles, é como eles estão nos enxergando. É o registro que fica para eles depois de todo o histórico de experiências com a empresa: ver o logo, assistir o anúncio, visitar o canal, reconhecer a embalagem, comprar e usar o produto, ligar para telefonista para reclamar etc. Sendo assim, não dá pra se afirmar que estamos fazendo branding apenas por mudar o logo, fazer anúncio ou ativar um patrocínio. É preciso se pensar em toda a cadeia.

Mas a resposta também é sim, porque se estamos modificando alguns pontos de contato (mudança de logo, anúncio, patrocínio etc.) – e dessa forma tentando moldar a maneira como somos percebidos – então estamos, de fato, contribuindo para a gestão deste ativo na mente de seus públicos.

Talvez esta seja a definição mais aceitável: branding não é um processo isolado, mas sim um esforço estruturado que envolve todas as áreas da empresa, não só aquelas que estão na ponta final da cadeia. Esse esforço todo tem um único objetivo: orquestrar a empresa de tal maneira a permitir que a experiência do consumidor seja não só a mesma em cada ponto, mas única (diferente de outras empresas) e relevante.

E que no fim, o que ele diga de nós para os outros seja exatamente o que a gente deseja. Como uma história que se repete sempre da mesma maneira.

Branding é essa história.

André Galiano Diretor da BrandAnalytics. Formado em Comunicação Social pela USP, pós-graduado em Administração de Empresas pela FGV/SP e Especialização em Finanças pela University of California. Foi Consultor na Interbrand de 2002-2006. Galiano participou de equipe de projetos para empresas no Brasil, Argentina, Espanha, México, Chile, Peru e EUA. Galiano leciona em cursos de pós-graduação pela faculdade FAAP.