Fonte: Revista Exame
Por Giuliana Napolitano
O carioca Alexandre Quintão, coordenador da área de relações com investidores da Petrobras, teve recentemente uma inusitada demonstração do novo status da economia brasileira — e de sua principal empresa. Quintão desembarcou no aeroporto JFK, de Nova York, às 6 da manhã do dia 14 de setembro para acompanhar o presidente da companhia, José Sérgio Gabrielli, numa série de reuniões com investidores. No guichê da imigração, ele mal teve tempo de explicar ao oficial a razão de sua visita aos Estados Unidos. Disse apenas que trabalhava na maior companhia brasileira de petróleo e foi interrompido pelo funcionário da imigração. “Na Petrobras?”, perguntou o americano. Meio perplexo, Quintão só teve tempo de dizer “sim” — para então ouvir uma entusiasmada demonstração de conhecimento sobre as descobertas do pré-sal. “Ele se disse impressionado com as notícias”, diz Quintão. “O contraste com o que acontecia antes é grande. Há alguns anos, muitos investidores estrangeiros não sabiam o que era aPetrobras. Várias vezes ouvi de gente graúda do mercado: ‘Petrowhat?’”
O oficial da Alfândega é apenas mais um da crescente legião de americanos interessados na Petrobras — e também em outras empresas brasileiras. Vale e Petrobras já estão entre as 35 companhias mais negociadas da bolsa de Nova York, acima de ícones como Coca-Cola e Visa. As duas têm hoje mais de 400 000 acionistas nos Estados Unidos — um número impressionante, que equivale a um terço do total de investidores que elas mantêm aqui. São pessoas como Michael Crawford, de 28 anos, acionista das duas companhias brasileiras há dois anos. “Até 2007, o Brasil não me dizia nada. De lá para cá, passei a receber muitos relatórios de bancos e corretoras falando bem da economia e das empresas do país. Hoje, acredito que, no mundo emergente, a Petrobras e a Vale, são as duas companhias mais promissoras e, por isso, vou aplicar mais nelas”, diz ele, que é diretor do Investor Relations Group, firma com sede em Nova York que assessora empresas de capital aberto. Em escala menor, outras companhias do país, como CSN e AmBev, também têm avançado no mercado americano. “O Brasil de fato mudou de patamar graças à evolução da economia e da qualidade de suas empresas”, diz Scott Cutler, vice-presidente da bolsa de Nova York (ou Nyse, na sigla em inglês).
Mais que uma informação curiosa, o fato de as empresas brasileiras terem cada vez mais investidores lá fora é algo estratégico. Uma parcela dos estrangeiros não pode ou não está disposta a encarar a burocracia de abrir uma conta no Brasil para aplicar diretamente na Bovespa. Isso tem levado várias companhias locais a lançar papéis (batizados de ADRs) na bolsa de Nova York para conseguir atrair mais acionistas. “Quando fazíamos apresentações internacionais, vários investidores, especialmente os fundos soberanos da Ásia e do Oriente Médio, diziam que só não aplicavam nas nossas ações porque não tínhamos papéis ADRs”, diz Marco Geovanne, executivo da área de relações com investidores do Banco do Brasil, que foi autorizado em setembro pelo governo a ser listado na bolsa americana, o que deve ocorrer em 2010. O BB segue o caminho de Bradesco e Itaú, que são listados lá fora desde o início da década, e também do Santander, que vai emitir ações de sua operação brasileira tanto na Bovespa como na bolsa de Nova York, no que pode ser a maior operação de mercado de capitais do ano no mundo. Somadas às companhias de outros setores, mais da metade de todos os negócios com ações de empresas brasileiras hoje ocorre no mercado americano.
Ao atrair mais investidores, as empresas brasileiras podem estar pavimentando o caminho para captar ainda mais recursos no futuro. Possuir ações muito negociadas é crucial para negócios que pretendem se financiar usando a bolsa, especialmente lá fora. Os fundos de pensão e outros gigantes institucionais só investem em papéis com um volume mínimo de transações por dia, para garantir que conseguirão comprá-los e vendê-los com facilidade. “Senão, toda vez que eles decidem negociar os papéis acabam interferindo no preço e, dependendo do caso, perdem dinheiro”, diz Edward Kuczman, analista da Van Eck, firma americana de investimentos que atende clientes institucionais. Daí a importância de avançar no ranking das ações mais negociadas. Hoje, o Brasil já é o segundo país em termos de movimentação de ações em Nova York, atrás apenas dos Estados Unidos.
Dezenas de estudos internacionais mostram que ter ações num grande mercado global pode trazer vantagens para as companhias. Um dos principais trabalhos, feito pelo professor René Stulz, da Universidade de Ohio, diz que a presença internacional pode reduzir os custos de captação de dinheiro. Não se trata, ele ressalva, de algo que ocorre da noite para o dia. “É preciso, primeiro, que as empresas consolidem uma base de acionistas globais”, diz Stulz. Uma vez conquistado esse portfólio de investidores, fica mais barato levantar capital. A Gafisa é um exemplo de como a expansão lá fora pode vitaminar os negócios. Se não tivesse decidido lançar ações na bolsa de Nova York em 2007, pouco depois de sua abertura de capital na Bovespa, a incorporadora provavelmente não teria conseguido levantar os quase 500 milhões de reais obtidos em Nova York que a ajudaram a duplicar seu volume de lançamentos e a comprar a antiga concorrente na baixa renda, a Tenda. “Hoje, embora não sejamos a maior incorporadora do país, temos as ações mais negociadas do mercado”, diz Alceu Duílio Calciolari, vice-presidente de finanças e de relações com investidores da Gafisa.
Lançar e manter ações na bolsa em Nova York, porém, é um processo caro. Estima-se que as empresas gastem, por ano, cerca de 2 milhões de dólares só para cumprir as exigências da temida lei contábil americana, a Sarbanes-Oxley — fora o pagamento das taxas normais cobradas pela bolsa. Tudo somado, é mais que o dobro do que se gasta aqui. “Não existe almoço grátis”, diz Roberto Castello Branco, diretor de relações com investidores da Vale. Essa é uma das razões que explicam por que apenas as companhias brasileiras de grande porte são listadas lá fora — são apenas 31 empresas, que movimentam grandes somas de dinheiro. Para as demais, resta como consolo o salto de qualidade da Bovespa nos últimos anos. De um mercado essencialmente local, com base numa regulação vista como frouxa, a bolsa paulista passou por um processo de modernização e avanço regulatório na última década, que incluiu a criação do Novo Mercado, um segmento que reúne empresas com alto nível de governança corporativa. O melhor reflexo dos resultados desses progressos foram as 170 aberturas de capital e as ofertas de ações que ocorreram na bolsa de 2004 para cá — e que tiveram, entre os compradores, 70% de investidores internacionais.
Um dos grandes projetos da Bovespa é atrair mais estrangeiros para o mercado local. Há poucos meses, os novos executivos da bolsa iniciaram uma ofensiva internacional. Estão sendo negociadas parcerias com a Nasdaq, dos Estados Unidos, e com mercados de ações na América Latina para permitir que os investidores desses países comprem papéis na Bovespa por meio de suas corretoras locais. A bolsa também ampliou seus escritórios em Xangai e Nova York e está abrindo um em Londres. “Isso é muito melhor para as empresas, que ficam no próprio mercado e têm condições de conhecer melhor seus investidores”, diz Paulo Oliveira Jr., diretor executivo da BM&FBovespa (que, aliás, não tem ações em Nova York). “Hoje, a Bovespa é uma das poucas bolsas do mundo procuradas pelos estrangeiros, mais que qualquer mercado da América Latina e mesmo de parte dos europeus. Nossa meta é ampliar isso.”
A bolsa nega, mas comenta-se que a motivação desse movimento seja contra-atacar Wall Street. “É lógico que existe uma competição por empresas e investidores”, diz um ex-executivo da Bovespa. A Nyse, por sua vez, não está só assistindo aos planos da Bovespa: neste ano, Scott Cutler, responsável pela listagem de empresas na bolsa americana, já esteve três vezes no Brasil — e, na última delas, em agosto, trouxe o presidente da bolsa, Duncan Niederauer, para visitar companhias e investidores em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. Seu objetivo é manter em crescimento o número de empresas brasileiras em Nova York. A primeira, a Aracruz, estreou lá em 1995 — hoje, são 31.
É cedo para dizer quais podem ser os resultados do pretendido avanço da Bovespa lá fora. A bolsa já tentou fechar uma parceria com o mercado do México no passado, mas o projeto naufragou por falta de aprovação dos órgãos reguladores. O que parece um caminho sem volta é a exposição que as empresas brasileiras vêm conseguindo no exterior. Companhias como Vale, Petrobras, Bradesco e Itaú Unibanco realizam em torno de 30 eventos com investidores no exterior por ano — fora as visitas que elas recebem aqui. É possível que Michael Crawford, o americano que investe em Vale e Petrobras, seja um desses visitantes em breve. “Nunca fui ao Brasil, mas quero ver de perto como funciona essa economia que está numa fase tão diferente da americana”, diz. Ele vai ter de se explicar na imigração, mas é improvável que não seja bem-vindo.