Você é o DNA da sua empresa

Fonte: Revista EXAME
Por José Augusto Corrêa

Muitos empreendedores, ocupados em fazer sua empresa florescer e multiplicar as vendas, se esquecem de uma missão que não se pode delegar a ninguém – determinar quais são os valores que devem ser cultivados e partilhados pelos funcionários. É um desafio mais árduo e importante do que pode parecer à primeira vista. O sonho de qualquer empresário deveria ser construir um negócio que cresça consistentemente e exista por muito tempo. Um dos pilares que fundamentam essa obra de engenharia é a criação da cultura da empresa — a sua empresa. Ela não pode ser diferente de você nem de suas crenças.

Cabe ao empreendedor, e somente a ele, determinar os valores que irão orientar as ações, reações e decisões das pessoas a seu redor. Quando o negócio é de pequeno porte, tudo fica mais fácil. O contato direto com empregados e fornecedores irradia os princípios e objetivos que o dono acalenta. Mas uma definição mais clara dos valores passa a ser indispensável no momento em que a empresa começa a crescer. As características de sua personalidade e seus valores não são mais imediatamente percebidos e assimilados, como no início. Para complicar, a expansão traz caras novas, que, conforme suas convicções, podem se comportar até em oposição aos princípios que você prioriza.

Se houver um vácuo, cada responsável por uma área implanta, mesmo sem perceber, os próprios princípios de vida, que nem sempre são os que você deseja para sua empresa. Uns podem ser ríspidos com os subordinados, outros agem com complacência excessiva. Uns colocam o cliente em primeiro lugar, outros são obcecados por planilhas. Uns são apagados demais, enquanto outros passam por cima de qualquer coisa (inclusive do que não devem) para consumar uma venda.

Nesse ambiente, podem surgir células doentes, disseminando conceitos peculiares de comportamento, ocupando espaços. Isso pode provocar sérias mutações no DNA de seu empreendimento, trazendo conseqüências imprevisíveis. O perigo é a empresa exibir um distúrbio de personalidade que, além de deixar os clientes atordoados, gere falta de coesão na busca dos objetivos originais. A definição prévia dos valores da empresa serve como vacina para um comportamento capaz de corroer as bases do que você construiu com tanto esforço.

Sua empresa depende de uma rede cujo bom funcionamento é essencial para seu sucesso. Lembre-se de que, além de criar uma empresa, você criou uma comunidade. Essa rede inclui as pessoas que mantêm relação com seus clientes, aparecendo para eles como a imagem daquilo que você criou.

É preciso tomar certas precauções ao estabelecer os princípios. Eles não podem ser rígidos a ponto de engessar a competitividade. É preciso prestigiar os funcionários que comungam dos valores da empresa, ainda que eles não alcancem os melhores resultados, e eliminar aqueles que hostilizam esses princípios, mesmo que seu desempenho seja excepcional. Os novos funcionários, uma vez incorporados aos quadros, devem conhecer e aprender a respeitar esses princípios. O importante é criar um ambiente no qual os funcionários já familiarizados com essa cultura facilmente percebam quando algum penetra não preenche os requisitos. Um organismo sadio cria rapidamente anticorpos. Assim, seus valores são naturalmente preservados, mantendo saudável o DNA de sua empresa.

José Augusto Corrêa – Coordenador do Centro de Empreendedorismo da Fundação Getulio Vargas  jacorrea@fgvsp.br

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