A aposentadoria do nome Unibanco

Fonte: Época Negócios
Por Daniel Hessel Teich e Alexandre Teixeira

ITAUUNIBANCODesde que o processo de fusão entre o Itaú e o Unibanco foi iniciado no ano passado, era consenso que a marca Unibanco deixaria de existir, substituída pela do Itaú. O problema para a equipe que conduzia o processo era justamente como fazer isso.

A opção foi por uma substituição paulatina, dividida em várias etapas, que deve se estender até o fim de 2010. A primeira delas deve acontecer em janeiro, na campanha publicitária do banco programada para o período das férias de verão. O lema dos comerciais deverá ser “Itaú 30 horas” – numa referência à assinatura que há mais de uma década foi símbolo do Unibanco. A partir de março, será a vez das cerca de 1000 agências do Unibanco começarem a ser transformadas em Itaú. A previsão é que essa mudança ocorra ao ritmo de 150 agências por mês.

Esse processo de troca – chamado transição de marca – praticamente se tornou uma expertise do Itaú, em decorrência de sua agressiva política de aquisições. Recentemente, o banco eliminou na Argentina o sobrenome Buen Ayre que adotava há quase uma década junto ao logotipo Itaú, em uma operação coinsiderada extremamente bem-sucedida.

O mesmo aconteceu no Chile, onde a marca BankBoston foi substituída pela Itaú há três anos. No Brasil, essa transição do BankBoston para Itaú Personalité foi mais complexa. O banco brasileiro teve que eliminar a marca e trocar tudo em um fim de semana por exigência contratual. O perfil dos clientes do BankBoston era bem diferente dos do Itaú e o banco teve que empreender um esforço gigantesco para provar a eles que nada mudaria.

No caso do Unibanco, o Itaú não quer correr nenhum risco desse tipo – daí a adoção do lema 30 horas, justamente para mostrar o quanto o Itaú valoriza as qualidades do antigo concorrente.

NOTÍCIA COMPLEMENTAR

Itaú Unibanco economiza R$ 1,5 milhão por ano com virtualização

Fonte: Época Negócios
Por Silvia Balieiro

No sétimo andar do CTO (Centro Tecnológico de Operações) do Itaú Unibanco, que fica no bairro paulistano da Moóca, estão os quatro mil servidores responsáveis por rodar os sistemas de 3.715 agências, 934 postos de atendimento e 29.979 caixas eletrônicos que atendem aos 19 milhões de clientes da instituição. Estas quatro mil máquinas ocupam uma área total de 1.000 metros quadrados, mas precisariam de um espaço maior, se 1100 não estivessem virtualizadas em apenas 70 servidores.

Como o próprio nome já diz, a virtualização é a tecnologia que permite transformar servidores reais em virtuais. Grosso modo, ela funciona por meio de um software que faz de conta que é hardware. Dessa forma, no mesmo disco rígido é possível criar uma ou mais máquinas com sistemas operacionais diferentes, configurações diversas e rodando programas totalmente distintos.

Com investimento anual em TI (Tecnologia da Informação) na faixa de R$ 3,2 bilhões (segundo ranking As Empresas Mais High Tech, da Época Negócios), o Itaú Unibanco investiu R$ 6,5 milhões num período de 2,5 anos somente na virtualização do data center. O valor inclui compra de hardware e software, consultoria e treinamento de pessoal.

Em contrapartida, o banco terá uma economia anual de R$ 1,5 milhão, especialmente no consumo de energia elétrica. “Além de os novos servidores serem mais eficientes, o número a menos de CPUs diminuiu a demanda por refrigeração e os custos com manutenção de hardware”, diz João Bezerra Leite, diretor de infraestrutura e operações de TI do Itaú Unibanco.

A economia de quilowatts e de reais não atrai somente o maior banco privado do país. Segundo estudo do instituto de pesquisas em tecnologia Gartner, a venda de software para virtualização irá crescer 43% este ano, subindo de um patamar de US$ 1,9 bilhão em 2008, para US$ 2,7 bilhões em 2009.

Antes e depois
A tecnologia permite ainda um ganho significativo de tempo. Antes da virtualização, para instalar um novo servidor, era necessário abrir um projeto na área de TI, colocar um rack novo no data center, acertar a parte elétrica e de rede, colocar a máquina para rodar com sistema operacional e storage e, por fim, criar uma máquina reserva para os casos imprevistos, no centro de recuperação de desastres, localizado em Campinas. “Era um processo que levava até 15 dias”, diz Leite.

Hoje, para as máquinas virtuais, três horas são suficientes para a instalação. É necessário apenas gerar a imagem padrão, instalar a aplicação e configurar em quais pontos da rede a máquina virtual estará conectada.

Outra vantagem para a TI do banco é a alta disponibilidade das aplicações. Quando uma máquina virtual apresenta algum defeito, o processamento é transferido para outro servidor. “Com a virtualização, o Itaú Unibanco estará preparado para as demandas dos próximos dez anos, mesmo considerando os planos de expansão internacional”, diz Oscar Clarke, gerente-geral da Intel no Brasil.

Nem todas as aplicações do banco rodam em máquinas virtuais. Mas a escolha não foi aleatória. O Itaú Unibanco teve a consultoria da Intel. Especialistas internacionais da fabricante de processadores vieram ao Brasil para fazer um diagnóstico do data center do banco e traçar algumas sugestões para aumentar a disponibilidade dos sistemas. O resultado do trabalho gerou uma lista com 50 recomendações, que foi avaliada pela área de TI da instituição. “Nós já tínhamos algumas estratégias prontas e a consultoria nos deu a certeza de alguns caminhos”, afirma Bezerra.

A caminho das nuvens
Concluída a primeira fase da criação das máquinas virtuais, o Itaú Unibanco inicia o próximo passo. “Queremos nos preparar para quando a computação em nuvem for um sistema confiável para as empresas”, revela Bezerra.

Segundo ele, hoje o banco já tem uma infraestrutura que pode ser considerada uma computação em nuvem privada, restrita somente à rede interna. Nesse sistema, é possível distribuir as aplicações de acordo com a capacidade das máquinas. Se uma máquina estiver sobrecarregada, seu trabalho pode ser dividido com outras que estejam ociosas.


O conquistador espanhol

Fonte: Revista Exame
Por: Marcelo Onaga

enriquebanuelos

Há um ano, o setor imobiliário brasileiro estava envolto em incertezas. Depois de um período de crescimento exuberante, as empresas — grandes e pequenas — se viram diante de uma crise que prometia mudar a cara do mercado para pior e que parecia ter potencial para varrer do mapa companhias enfraquecidas financeiramente. Empreendimentos eram cancelados, demissões ocorriam às centenas, bancos restringiam ao máximo a concessão de crédito. As projeções de especialistas eram sombrias. Perdida em meio aos índices e atarantada com o que acontecia no mundo, a maioria deles previa um período de seca longo e severo. Foi nessa hora de medo que o mercado imobiliário se viu diante de um novo e enigmático personagem. O espanhol Enrique Bañuelos de Castro, investidor tão rico quanto polêmico, chegou ao Brasil no final de 2008 com o objetivo de comprar empresas e criar uma incorporadora capaz de concorrer com potências como a Cyrela, de Elie Horn, e a Gafisa, que tem entre seus acionistas o investidor americano Sam Zell. Nascido em Sagunto, cidadezinha costeira de 60 000 habitantes localizada na região de Valência, 43 anos, cerca de 1,70 metro de altura, discurso sedutor e olhar determinado, Bañuelos desembarcou em São Paulo com uma fortuna pessoal de cerca de 2 bilhões de dólares — e a incômoda fama de ter sido o protagonista do processo de criação e destruição de uma bolha que derrubou o mercado imobiliário espanhol em 2007. “Quando ele chegou, fiquei apreensivo, como a maioria das pessoas do setor”, diz Sérgio Carettoni, sócio da paulista GAS Investimentos, que tem participações minoritárias em diversas incorporadoras brasileiras.

tab_c_imoveis1_g

Quase um ano se passou e a crise fez estragos muito menores do que os previstos pelos analistas. O mercado imobiliário brasileiro continuou a ser um dos mais pujantes do mundo — e hoje os analistas recomendam com ênfase as ações das empresas do setor. Bañuelos, porém, soube aproveitar melhor do que ninguém o período de medo. Nos últimos meses, sua empresa, a Veremonte Participações, investiu cerca de 500 milhões de reais em quatro aquisições. Em dezembro de 2008, comprou uma participação de 7% na Agra, incorporadora paulista controlada pelo empresário Luiz Roberto Silveira

Pinto. Na sequência, adquiriu o controle da Abyara e da Klabin Segall, companhias de médio porte que enfrentavam problemas de caixa e estavam à beira de um colapso. Em setembro, Bañuelos e Silveira Pinto adquiriram os 20% de participação que Elie Horn, dono da Cyrela, possuía na Agra. Finalmente, há poucas semanas, Bañuelos reuniu todas essas companhias sob um novo nome — Agre, que nasce como a quinta maior empresa de um setor gigantesco, que movimenta 180 bilhões de reais ao ano e é responsável por 6,2% do PIB brasileiro. A expectativa das incorporadoras e imobiliárias é que a maior oferta de crédito, a retomada do consumo pelas classes A e B e o impulso do programa de habitação popular Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, deem início a um dos períodos mais prósperos da história do setor e transformem o mercado brasileiro num dos maiores campos de oportunidades do mundo nos próximos anos. “Em 2010, o volume de lançamentos deve chegar perto do que foi em 2007 e 2008, quando as vendas foram muito fortes”, diz Cristiane Amaral, sócia da consultoria Ernst&Young responsável pela área de construção civil.

tab_c_imoveis2_g

Em entrevista exclusiva a EXAME — a primeira a uma publicação brasileira –, Bañuelos diz que sua investida no setor imobiliário é só o começo. “O Brasil é o grande país emergente do momento”, diz. “Para quem quer fazer negócios, está à frente, inclusive, da China.” Sob muitos aspectos, o espanhol Bañuelos é a personificação do investidor estrangeiro que começa a descobrir o país como um lugar para colocar dinheiro e fazer negócios. Como recentemente afirmou Marcelo Telles, um dos controladores da cervejaria AB InBev: “Nunca vi tanto entusiasmo em relação ao Brasil”. No ano passado, os investimentos estrangeiros diretos (aqueles dirigidos ao setor produtivo) somaram 45 bilhões de dólares, volume 350% maior do que os 10 bilhões de dólares investidos em 2003. Bañuelos também afirma que o setor imobiliário deve ser o primeiro de uma série de outros que receberão dinheiro da Veremonte. Ele acaba de fechar duas parcerias que vão transformá-lo no maior empresário do setor hoteleiro do Brasil. Uma delas é com a francesa Accor. “Juntos, vamos investir 480 milhões de reais na construção de 4 880 quartos de hotéis populares”, afirma Bañuelos. “A administração ficará com a Accor.” Os hotéis econômicos devem ficar prontos em três anos e serão erguidos em cidades interioranas e em pequenas capitais. Bañuelos pretende, assim, ganhar com o crescimento regional de um país no qual a atividade econômica ainda se concentra no eixo Rio-São Paulo, mas começa a emergir no interior. A outra parceria é com a família real dos Emirados Árabes, controladora da rede de hotéis Jumeirah, dona, entre outros, do Burj Al Arab, cartão-postal de Dubai. Bañuelos construirá, em parceria com os xeiques, 1 000 quartos de hotéis de luxo. Os empreendimentos — hotéis de cinco e seis estrelas — serão erguidos no Rio de Janeiro. Bañuelos, nesse caso, enxerga as oportunidades da Copa do Mundo e da Olimpíada de 2016. Entre seus alvos de aquisição no setor imobiliário está também o complexo hoteleiro da Costa do Sauípe, na Bahia. O negócio quase foi fechado no ano passado. (Além de aumentar sua atuação no setor de imóvel, o Costa do Sauípe o ajudaria a entrar na área de turismo. Outro alvo, nesse setor, seria a CVC, maior operadora do país.)

Filho de um operário de uma companhia siderúrgica que morreu quando ele tinha 9 anos de idade e de uma dona de casa, Bañuelos é descrito por seus amigos como um homem ambicioso. E como um megalômano por seus críticos e inimigos. “Ele pensa grande, fala como se fazer negócios milionários fosse fácil”, diz um empresário do setor imobiliário, com faturamento de mais de 1 bilhão de reais por ano e que recentemente foi procurado pelo espanhol. “Sua postura assusta.” Bañuelos, de fato, é profícuo ao perfilar seus planos de investimento. Envolve seus interlocutores com discursos cheios de entusiasmo e planos ambiciosos. O setor imobiliário seria apenas um entre seus vários investimentos no Brasil. Segundo ele, em 2010 a Veremonte investirá 2 bilhões de reais em negócios ligados às áreas de saúde, energia, infraestrutura, shopping centers, meio ambiente, alimentação e financiamento imobiliário. O dinheiro não virá todo de sua fortuna pessoal, diz Bañuelos. Boa parte dos recursos aplicados será de fundos de investimento americanos, europeus, árabes e chineses — ele não revela os nomes. Sua investida em vários setores — não por acaso, todos apontados como de grande potencial de crescimento nos próximos anos — pode ser tachada de falta de foco ou de arrivismo. Para Bañuelos, porém, é pura estratégia. “Sempre começo as atividades em um país pelo setor imobiliário”, afirma. “Depois, parto para outros setores.” Foi assim que ele fez na Espanha, onde, depois de criar a Astroc, sua incorporadora imobiliária, investiu na companhia energética Union Fenosa, no banco Sabadell e na companhia de táxi aéreo Rentalia. Agora, repete o roteiro no Brasil, em países do Leste Europeu, no Oriente Médio e na China.

Desde que deixou a Espanha, em 2007, Bañuelos decidiu aliar-se a parceiros locais e ficar fora da gestão das companhias nas quais investe. Ele também não participa dos conselhos de administração. Para diversos executivos ouvidos por EXAME, essa seria a forma de evitar que sua imagem de empresário polêmico — adquirida após o rompimento da bolha imobiliária espanhola — contamine os negócios no Brasil. “Muitas empresas e bancos não querem fazer negócios com ele por desconfiança”, diz um executivo de uma grande incorporadora. Para os espanhóis, Bañuelos passou rapidamente de um fenômeno de mobilidade social e empreendedorismo a personagem vital da atual crise financeira. Em 2006, a Astroc, especializada em imóveis de veraneio na costa de Valência, havia se tornado uma das maiores incorporadoras do país. Na época, sua especialidade era comprar terrenos em áreas rurais que, mais tarde, eram transformadas em regiões urbanas. Com a farra mundial de crédito, espanhóis, ingleses e nórdicos passaram a comprar sua segunda casa na região. A Astroc explodiu. No início de 2006, Bañuelos abriu o capital da companhia com o projeto de transformá-la num negócio nacional. No IPO, 25% das ações ofertadas foram compradas por grandes investidores institucionais, como o empresário espanhol Amâncio Ortega, dono da rede varejista Zara. Lançadas a 9 dólares, as ações atingiram 98 dólares menos de nove meses depois. A procura motivou a Astroc a fazer uma nova oferta, mantendo 51% do capital. Bañuelos foi alçado à posição de terceiro homem mais rico da Espanha e 95o homem mais rico do mundo, com uma fortuna de 7,7 bilhões de dólares, segundo a revista americana Forbes. Em 2006, ao inaugurar sua fundação voltada para projetos sociais e artísticos em Nova York, ofereceu uma paella a 28 000 pessoas convidadas ou que passavam pelo Central Park.

tab_c_imoveis3_g

O sonho começaria a ruir em março de 2007, quando as ações da Astroc se tornaram alvo de forte especulação e começaram a despencar. Um mês depois, valiam 4 dólares, obrigando Bañuelos a deixar o comando da empresa. No dia seguinte à sua saída, os papéis valorizaram 39%. Com a queda, o empresário tornou-se uma espécie de inimigo público no país. O advogado Felipe Izquierdo entrou com uma ação na Justiça espanhola acusando Bañuelos de fraude em balanços e de fazer transações com partes relacionadas para valorizar as ações da Astroc. Izquierdo representaria 50 investidores (ele não revela os nomes) e calcula ter perdido 20 000 euros com as ações da Astroc. O processo foi arquivado, reaberto e até hoje não foi julgado. Atualmente, Bañuelos tem menos de 5% das ações da Afirma, empresa que sucedeu a Astroc, e vendeu sua participação de 4% no banco Sabadell. Ele põe na conta do conservadorismo espanhol os ataques sofridos desde o estouro da bolha. Para Bañuelos, a alta sociedade do país nunca teria visto com bons olhos o filho de um operário, sem nenhuma tradição, se tornar um dos homens mais ricos do mundo.

Apesar de sua distância do dia a dia das empresas, seria um erro tratar Bañuelos como mero investidor institucional. É ele quem define a estratégia e o plano de crescimento de suas companhias. Depois, entrega a execução às pessoas que escolheu. No Brasil, Bañuelos elegeu dois homens de confiança. Um deles é Marcelo Parachinni, ex-vice-presidente do banco Santander na Espanha e principal executivo da Veremonte. É ele quem busca novos negócios para que o espanhol invista. O outro é Silveira Pinto, seu sócio na Agre. Fundador da Agra, ele é considerado pelo setor um dos grandes gestores de incorporadoras no país. Sua credibilidade com os bancos também foi decisiva na escolha da parceria. Coube a Silveira Pinto acertar a compra da Abyara e da Klabin Segall e renegociar suas dívidas, de mais de 1,2 bilhão de reais, com os bancos. A compra das duas incorporadoras revelou a forma arrojada como Bañuelos e seus enviados fazem negócios. Não houve processos de auditoria em nenhuma das companhias. A situação de caixa de ambas era crítica e foi necessária uma ação rápida. “Eles assumiram o risco e aproveitaram um momento de preços muito baixos para comprar duas empresas boas que enfrentavam problemas”, diz Eduardo Silveira, analista de construção civil do Banco Fator.

A derrocada cinematográfica em seu país natal, a Espanha, representou para Bañuelos não apenas uma mudança em sua estratégia de negócios como também afetou profundamente sua vida pessoal. A sede da Veremonte passou a ser Londres. É de lá que o jato executivo Gulfstream 550 da Rentalia decola para levá-lo a diversos pontos do mundo. Seu destino mais frequente é o Brasil, onde já passou 160 dias deste ano. Até o final de outubro, Bañuelos costumava se hospedar em hotéis paulistanos durante as visitas ao país. Há poucas semanas, mudou-se para uma cobertura na Vila Nova Conceição, bairro nobre ao lado do Parque Ibirapuera (adepto de meias maratonas, o empresário corre no parque vizinho sempre que pode). Seu lazer quando está no país se resume a passeios a pé pelas ruas de São Paulo. “Gosto de andar e não sei dirigir. Então caminho muito.” Sua família continua morando em Valência. A mulher trabalha para o governo como fiscal de renda. As filhas, de 9 e 11 anos de idade, estudam em uma escola comum, têm aulas particulares de mandarim e uma vida tão comum quanto garotas bilionárias podem ter. “Quero que elas cresçam como crianças normais”, diz Bañuelos. Para matar a saudade, o empresário fala com as meninas duas vezes por dia por videoconferência. Nos fins de semana, ele voa para Valência ou a família se desloca para Londres. O estilo de vida confortável que Bañuelos pode oferecer às filhas contrasta com sua infância difícil. Após a morte do pai, vítima de um acidente de trabalho, ele, a mãe e a irmã passaram por dificuldades financeiras. A empresa onde o pai trabalhara pagou seus estudos, mas não havia renda suficiente para as demais necessidades da família. “Muitas vezes a comida acabava antes de o mês terminar”, diz ele. Aos 16 anos, juntamente com três amigos, ele abriu seu primeiro negócio, a Miel de Luna, uma pequena fabricante de mel. Aos 19, criou uma imobiliária. Uma década depois, sua empresa já tinha um tamanho respeitável. Começa, assim, sua vida de investidor no mercado de imóveis. Em 2005, sua empresa valia 1 bilhão de dólares.

tab_c_imoveis4_g

Bañuelos venceu a miséria, sobreviveu, embora chamuscado, ao colapso no mercado espanhol e agora, aos 43 anos de idade, tenta repetir seu período de fausto no Brasil. “Aos poucos ele foi mostrando seus planos, investindo dinheiro próprio e vencendo a desconfiança”, diz Sérgio Carettoni, acionista minoritário da Agre. Mas o próprio Bañuelos sabe que, para afastar as nuvens que o cercam, ele precisará fazer de seus planos negócios reais.

Encarnados geram mais receita e têm marca mais valiosa

Fonte: DN Desporto (Portugal)
Por: Sérgio Pires

Em campo, são onze contra onze. Fora dele, o Benfica só não leva vantagem nas bancadas de Alvalade. O mote não é apenas o valor do plantel ou o avanço pontual na Liga da equipa de Jorge Jesus, mas um critério bem mais estrutural: a considerável diferença de valores entre a projecção dos dois rivais.

Neste aspecto, a base de apoio é crucial. O Sporting ultrapassou recentemente os 100 mil sócios, porém, os encarnados já inscreveram há largos meses o seu nome no livro dos recordes e dobram o número do rival nesse aspecto, algo que de acordo com um especialista em consultadoria financeira contactado pelo DN “corresponde a uma valiosa base de apoio, um atractivo para qualquer empresa que queira fazer uma parceira com o clube”.

BenficaNestas contas entram também as estimativas relativas aos adeptos dispersos pelo país e pelo mundo e aí Camilo Lourenço, jornalista especializado em economia, considera “o Benfica como única marca portuguesa com projecção internacional”. A confirmar esta opinião surge o número estimado de 4,7 milhões de adeptos em Portugal e 14 milhões à escala planetária (segundo um estudo de 2006, realizado pela empresa Vox Populi, em colaboração com o Instituto Nacional de Estatística e a secretaria de Estado das Comunidades Portuguesa). O que tudo isto quer dizer? Que a marca Benfica vale bem mais do que a dos rivais, tal como foi calculado pela empresa internacional de consultadoria Interbrand, que em 2007 divulgou um estudo em que a marca Benfica tinha um valor calculado de 107 milhões de euros, seguida de FC Porto (73 milhões) e Sporting (66 milhões).

“A marca é avaliada pela capacidade de gerar receitas. O Sporting tem menor capacidade que o Benfica nesse campo e, portanto, vale muito menos”, revelou fonte de uma importante consultora internacional, que dá um exemplo prático da diferença entre ambos: “Recentemente, a Centralcer fez um contrato de patrocínio de camisolas de futebol com os dois clubes e pagou um valor substancialmente inferior ao Sporting.”

Uriel Oliveira, director da Cision, empresa que avalia a reputação mediática das marcas, concorda com o facto de o Benfica ser um conteúdo mais vendável pelos media, que dão exposição em função das expectativas do consumidor, explicando a metodologia que a sua empresa executa para fornecer a alguns patrocinadores estes dados.

“Avaliamos o tempo de antena e espaço editorial para perceber a capacidade que a marca tem em ser protagonista da agenda dos media (na televisão, Internet, rádio, etc…) e avaliamo-la como se de publicidade paga se tratasse. Quanto vale uma página de jornal sobre o Benfica? Quando uma marca como a TMN quer patrocinar a camisola de um clube, quer saber qual é o seu valor activo em termos de exposição”, salienta o responsável da Cision.

No entanto, outro desafio se coloca a breve trecho para que os clubes de futebol portugueses continuem a projectar ainda mais as suas marcas. E segundo todos os especialistas, a estratégia passa por alargar o espectro de negócios a outros mercados e por diversificar os ramos de actividade. Numa fase ainda embrionária da era da capitalização da sua imagem, os grandes de Lisboa começam a dedicar-se a outras vertentes, bem distantes dos negócios inerentes ao jogo nas quatro linhas. Ao merchandising e venda de bilhetes, de direitos televisivos e de passes de jogadores, intimamente ligados ao core business futebolístico, Benfica e Sporting franquearam as suas marcas em clínicas, empresas de viagens, soluções financeiras ou seguros.

O próximo desafio passa por explorar novos mercados emergentes, com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e as comunidades de emigrantes portugueses e lusodescendentes no pelotão da frente.

O poder das marcas empresariais: como influenciarão o destino de seu negócio

Fonte: Revista Corporativa
Por Gabriela Moreira

batmanAs marcas começaram a fazer parte da linguagem de negócios no final do século XIX e início do século XX, época em que nos Estados Unidos e em outros países, surgiam mercados nacionais integrados e a economia estava se industrializando.

Um grupo de jovens empresas, da Ford à Coca-Cola, começou a produzir e distribuir produtos de consumo para milhões de famílias. Para comunicar os seus produtos e distinguí-los de seus competidores e concorrentes, as empresas investiram em embalagens, publicidade, força nacional de vendas e, em alguns casos, treinamento de funcionários, e, para integrar tudo isso, precisavam de uma Marca institucional.

Mas afinal qual o segredo de estar presente na cabeça – e na preferência – dos consumidores, uma vez que milhares de produtos de um mesmo segmento podem ser encontrados?

A criação de uma Marca vai muito além do nome e do símbolo que a acompanha. O que gera valor a uma Marca (e consequentemente volume de negócios a uma empresa) é o que ela representa em termos gestão do negócio e que emoções ela transmite às pessoas.

O nome, a imagem, a essência do negócio e a emoção que deve ser transmitida são a base da criação de uma identidade corporativa. Quando bem desenvolvidos e agregados geram impacto e valor ao negócio.

Em empresas com Marcas poderosas como Google, Apple ou Starbucks, existe um entendimento coletivo de que o negócio simplesmente não existiria sem a Marca. A Marca minuciosa e perfeitamente elaborada dá forma à essência da empresa; orienta para onde ela deve seguir com o crescimento do mercado; e qual a postura deve adotar neste caminho.

Em algumas empresas, a aceitação e o envolvimento com a Marca é como uma paixão, com fidelidade total. Estes ‘fortes laços’ trazem importantes benefícios ao longo da trajetória da corporação, incluindo funcionários comprometidos; diferenciação lucrativa no mercado e fidelização de clientes. Perceba sua fidelidade e preferência ao fazer buscas na internet, comer um sanduíche, tomar um café na rua, assistir um noticiário na TV, e por aí vai…

Através da Marca, um produto ou serviço deve conquistar a confiança e se tornar ‘íntimo’ dos consumidores. É preciso consistência na comunicação e ações precisas para conseguir que uma Marca gere impacto perante os consumidores e no mercado.

Um exemplo de marca forte e estruturada é a TAM, que mesmo após o trágico acidente, há dois anos em Congonhas, é hoje a marca mais lembrada de empresa de aviação, segundo dados da pesquisa Datafolha Top of Mind de 2009. Isso é possível devido a construção de uma imagem institucional sólida, que mantém seus valores em seus serviços e na comunicação com o mercado.

Pequenas empresas, Grandes Marcas

A criação de uma Marca íntegra, impactante e emocional deve ser um dos pontos de partida para as empresas que estão nascendo, se desenvolvendo e se estruturando no mercado.

Procurar um profissional especializado no estudo de criação de marcas (branding) que saiba agregar e refletir valores às imagens, atualmente, é uma necessidade para o empresário empreendedor que quer se destacar no mercado.

Mensagens subliminares

A logoMarca é o primeiro contato da empresa com o público, é através dela que o mercado receberá impressões do seu business.

O desenho da Marca e o nome da corporação devem espelhar os valores da empresa e a mensagem que ela quer passar;
Cores e fontes do logo devem ser definidas de maneira a expressar as características do negócio (não o gosto pessoal), como: rapidez, seriedade, criatividade, feminilidade;
Formas e as linhas (modernas com curvas, ou mais tradicionais, rígidas e conservadoras) expressam a identidade da empresa.

É através do impacto e da sinergia do logotipo que a empresa se diferenciará inicialmente no mercado. Daí a importância desta imagem ser desenvolvida por profissionais que saibam como comunicar valores através de palavras, cores, traços e símbolos. Isso evitaria vermos tantos logos sem identidade, muitos parecidos uns com os outros, e que poderiam representar qualquer tipo de negócio, pois não estão conectados com produto que representam nem em sintonia com o público que querem atingir.

* Gabriela Moreira – Diretora da D2C – Design to Companies – empresa de Marketing estratégico & Arquitetura comercial. Graduada em Marketing e Comunicação com o Mercado, pela ESPM/SP. www.design2c.com


Apple supera Google como marca mais influente na Inglaterra

Fonte: Terra Negócios e TI

appleA Apple conquistou o primeiro lugar da lista anual de liderança em pensamento empresarial da Grã-Bretanha, que envolve entrevistas com cerca de mil líderes das principais empresas do país a fim de identificar quais organizações são consideradas as que melhor cumprem com o compromisso da marca, a partir da inovação de produtos e modelo de negócios.

A pesquisa, conduzida pela TLG Communications e pela Populus, consultou mil pessoas consideradas líderes de opinião em diversos setores, como o setor empresarial, governamental, empresas sem fins lucrativos e setores de mídia, conforme informações do site eCommerce Journal.

No ano passado a Apple ficou em segundo lugar, logo atrás da Google, mas em 2009 alcançou o topo da lista devido ao sucesso contínuo do iPhone e da App Store, além da força de seus produtos de outras linhas, como o MacBook, iMac e iPod.

A Microsoft conquistou o terceiro lugar, empatada com a Amazon e a GlaxoSmithKline, uma das poucas empresas do top 10 que não trabalham com tecnologia.

Empresas com marcas baseadas na web também foram destaque. Além da Google, o topo da lista incluiu o Facebook em oitavo lugar, e o Twitter em décimo. Malcom Fooderham, diretor administrativo da TLG, disse, de acordo com o site 9to5mac que as empresas com maior influência são aquelas em que a marca definiu positivamente uma indústria ou uma questão.

A lista dos líderes de pensamento empresarial britânica pode ser conferida no atalho bit.ly/ThoughtLeadershi p.

“O Brasil pode e deve criar marcas globais”

Fonte: Época Negócios
Por Hugo Cilo e Leonardo Attuch

natura

Dias atrás, uma notícia chamou a atenção do mercado financeiro. relatórios de analistas apontaram que a Avon, maior empresa de cosméticos do mundo, estava sendo negociada com um desconto em relação à brasileira natura. isso significa que os papéis da companhia brasileira, hoje avaliada em mais de R$ 14 bilhões, já são mais disputados por investidores do que os da gigante americana.

Um dos responsáveis pelo sucesso da natura é o empresário Pedro Passos, sócio-fundador da companhia, que, recentemente, assumiu também a presidência do instituto de estudos para o desenvolvimento Industrial. No Iedi, ele defenderá velhas bandeiras, como câmbio e juros, mas também uma agenda mais moderna, como a da sustentabilidade e da inovação. “O Brasil está pronto para dar um salto de qualidade”, disse ele à dinheiro. Leia a seguir sua entrevista.

DINHEIRO – O que a experiência da Natura agrega ao Iedi?
PEDRO PASSOS -
O Brasil precisa criar marcas globais. Sempre defendemos a ideia de que as empresas brasileiras devem agregar valor às marcas. Nos últimos anos, o Brasil avançou muito. E as empresas, juntas, precisam tirar proveito desse momento. A Natura não precisa ensinar nada a ninguém. O importante é compartilhar informações e trazer uma visão diferente.

DINHEIRO – Qual é a visão?
PASSOS
– As empresas devem aproveitar a boa imagem do Brasil no Exterior para colocar suas marcas em novos mercados. Precisam ousar, buscar parcerias, estabelecer múltiplas fontes de financiamento e assumir boas práticas sociais e ambientais.

DINHEIRO – O que muda no Iedi?
PASSOS
- Embora tenha assumido agora a presidência do Iedi, eu já participo do instituto há muitos anos. Tenho profunda admiração pelo posicionamento da entidade, que apresenta uma visão ampla sobre diversos assuntos, com estudos técnicos de qualidade e uma grande vantagem em relação a outras entidades de classe. O Iedi não fala de interesses setoriais, e muito menos de interesses particulares.

DINHEIRO – Mas sempre esteve mais ligado a uma indústria pesada, abordando temas como juros e câmbio. Seu perfil é um pouco diferente, não?
PASSOS
– O Iedi historicamente tem defendido os interesses do Brasil. A visão do Iedi nos últimos anos sobre o câmbio é que, no nível atual, ele desfavorece um certo desenvolvimento da indústria. Essa deve ser uma preocupação do País, não só da indústria.

DINHEIRO – O sr. enxerga o Brasil muito focado em commodities?
PASSOS
– Não quero aqui satanizar o setor de commodities. É muito bom que o Brasil tenha recursos naturais. Mas precisamos pensar em que tipo de país nós queremos para o futuro. Aquele que exporta soja, petróleo, minério ou que exporta tecnologia, conhecimento e produtos de alto valor agregado? Os Estados Unidos também são grandes exportadores de commodities. Queremos ter mais empresas como Embraer. Se tivermos uma indústria forte e diversificada, teremos um país forte. Então, para proteger essa indústria relevante, existe, sim, uma preocupação que justifica as críticas ao câmbio.

DINHEIRO – Mas o real forte expande o mercado interno brasileiro e favorece empresas de bens de consumo, como a Natura.
PASSOS
- A Natura vai melhor quando o Brasil vai bem. Alguns podem pensar que o câmbio atual é bom para o Brasil e o consumo interno. Mas não podemos defender uma situação circunstancial. Nós temos a consciência de que precisamos torcer por um Brasil melhor. Não olhar para a conjuntura de forma individualista. No fim, é a busca de equilíbrio.

DINHEIRO – Fora do tema cambial, quais são os grandes desafios?
PASSOS
- Mudanças climáticas, economia de baixo carbono, sustentabilidade. Tornar as empresas brasileiras mais competitivas já é uma agenda do Iedi de muitos anos. Acho que o que se acrescenta agora é como se comportar num cenário de grandes mudanças. Isso não quer dizer que vamos ensinar. Vamos debater.

DINHEIRO – Em relação à economia, qual é sua visão? A crise acabou?
PASSOS -
Os números mostram que o pior da crise já está superado. Os Estados Unidos começam a sinalizar uma reação. E os países emergentes, como o Brasil, voltaram a crescer. Só não pode haver excesso de euforia.

DINHEIRO – O sr. enxerga os emergentes liderando o consumo global?
PASSOS
– Nossa experiência na Natura comprova a força do consumo das classes emergentes no Brasil. Não será diferente em outros países. Os estímulos para ampliar os mercados consumidores, sem dúvida, beneficiarão economias como as de Brasil, China e Índia. Isso dará mais sustentação ao crescimento mundial. Uma coisa é certa: o mundo trabalhar para suprir o consumo americano, isso não haverá mais. Não quero dizer que os Estados Unidos não têm força para se reinventar, mas vai ser um pouco diferente.

DINHEIRO – Diferente de que forma?
PASSOS -
Aposto na hipótese de que os emergentes terão um papel mais relevante no consumo mundial. Temos uma agenda bastante positiva e, se fizermos as coisas certas, poderemos aproveitar uma grande oportunidade.

DINHEIRO – Qual é ela?
PASSOS
- Se a gente fizer as coisas de forma responsável, há poucas chances de o Brasil dar errado. O País só precisa investir mais em pesquisa, inovação e tecnologia. O Brasil tem tudo para dar um salto de qualidade, indo além das commodities.

DINHEIRO – Como o sr. avalia a euforia em torno do pré-sal?
PASSOS
- É importante e contribui para que o País tenha recursos para financiar o desenvolvimento. Mas não é a solução de todos os problemas. E quem fez um alerta importante foi o Delfim Netto, ao dizer que a era do petróleo não vai acabar por falta de petróleo. Há uma agenda global de inovação na área energética e o Brasil, que tem o etanol mais competitivo do mundo, deve se posicionar como um dos líderes. Eu acho que o Brasil não poderia abrir mão de trilhar esse caminho. O País tem energia de monte. Poderia suprir toda a América Latina. E é também um grande produtor de alimentos. Agora, o Delfim é brilhante na colocação que fez. Não podemos perder o bonde. Deveríamos estar investindo em inovação. Cadê as Embrapas da inovação? Minha área é cosmético, mas sei que o petróleo, no futuro, vai ser destinado a usos mais nobres.

DINHEIRO – E quais são os riscos que o sr. enxerga no horizonte?
PASSOS -
O Brasil já saiu da crise e sentiu menos que os outros países. Mas me preocupa um acréscimo dos gastos do governo, e o Brasil não está abrindo espaço para investimento.

DINHEIRO – E como o sr. avalia o papel do BNDES? Ele tem selecionado vencedores?
PASSOS
– Eu vejo o BNDES fazendo um trabalho abrangente. Vejo indústrias de todos os setores recorrendo ao banco e tendo acesso a crédito. Durante a crise, o banco desempenhou um papel relevante no apoio às empresas.

DINHEIRO – O governo irá tirar R$ 100 bilhões do Tesouro para emprestar ao banco no ano que vem. E pode emprestar ainda mais. Tem que ter limite?
PASSOS
- As empresas não podem depender apenas do BNDES para financiamento de longo prazo. O banco deve ser apenas uma parte integrante das fontes de financiamento. É muito arriscado apostar todas as fichas nos recursos do BNDES e ignorar outros meios de geração de recursos, como o mercado de capitais, que também cresceu muito nos últimos anos. Não há respostas fáceis, mas criar um modelo de financiamento de longo prazo é vital. O Brasil tem um caminho promissor no mercado financeiro. Muitas empresas irão abrir capital para atrair novos recursos. É papel do Iedi ajudar nessas formulações.

DINHEIRO – Houve momentos, antes da crise, que o mercado de capitais financiava mais que o BNDES.
PASSOS
- Mas imagine se a gente não tivesse o BNDES em períodos de escassez de crédito como o que a gente passou. Seria pior. Temos que equacionar os financiamentos de longo prazo. Além disso, setores que não eram tão organizados passaram a se organizar para ir ao mercado. Esse é um benefício do mercado de capitais que vai além da questão financeira. É um ganho intangível, na governança.

DINHEIRO – Recentemente, o governo taxou o ingresso de capital estrangeiro na Bovespa, aumentando o IOF. Como o sr. avalia a decisão?
PASSOS
- A decisão do governo de olhar para a queda do dólar é correta. Porém, entendemos que o instrumento não pode ser eterno. É mais tratamento de sintoma do que da causa. A ferramenta escolhida foi ineficiente e gerou distorções.

DINHEIRO – Qual seria o caminho?
PASSOS
- Teria sido melhor reduzir a taxa de juros. A taxa Selic já caiu muito, mas poderia cair muito mais. Ainda é uma diferença muito grande. Basta comparar a situação brasileira com o quadro internacional, onde os juros são bem menores. Vamos ter que investir também no superávit fiscal e dar estímulo à poupança. Temos uma indústria capaz, não temos pressão inflacionária, então temos chance de trabalhar um pouco mais tranquilos. Em relação aos juros, não tenho competência para dizer qual o ponto certo dos juros, mas avalio que o Henrique Meirelles tem feito um bom trabalho, embora em muitos períodos pudesse caminhar um pouco mais rápido. O Banco Central foi muito conservador.

DINHEIRO – O Brasil já gerou mais de um milhão de empregos em 2009, enquanto o mundo inteiro demite. Será que já não há mais do que reclamar?
PASSOS
- O Brasil tem tido um resultado impressionante em termos macroeconômicos, na média geral. Mas ainda precisa gerir melhor os desafios “micro”. Agora precisamos fazer a lição de casa em competitividade, inovação e desenvolvimento. Existem muitos atores, como ministérios, intervindo num processo único. Assim fica difícil obter resultados. Há ainda o Ministério Público atuando contra obras públicas. Isso não é defender o meio ambiente. É congelamento. Precisamos alinhar interesses e buscar o objetivo comum.

Fusão Amil-Medial agrada mercado, mas envolve desafios

Fonte: Revista Exame
Por Peri de Castro

amil

A compra da operadora de planos de saúde Medial pela Amil, anunciada nesta quinta-feira, pode aumentar a eficiência de ambas as companhias e abrir caminho para uma consolidação maior do setor, segundo analistas de duas corretoras que acompanham a Amil. No curto prazo, porém, a empresa precisa provar que é capaz de digerir os ganhos de sinergia que a aquisição pode trazer num prazo que compense o valor pago pela transação, visto como relativamente alto.

A visão mais positiva sobre a compra vem do analista da corretora do Santander, Daniel Gewerh. Responsável pela cobertura das empresas do setor de saúde, ele afirma que o principal benefício para as companhias é a possibilidade de a Medial melhorar seus processos de precificação dos planos de saúde comercializados, ao adotar os padrões da Amil.

Segundo o analista, a Medial praticava preços abaixo da média de mercado para alguns produtos como forma de conquistar clientes da concorrência, mas amargava prejuízo nessas operações. No longo prazo, a empresa saía muito prejudicada pela estratégia.”Nesse setor, a precificação é fundamental, é o ponto mais importante desse negócio”, afirma.

A aquisição também pode melhorar os índices de sinistralidade da Medial – ou seja, reduzir os gastos da empresa com serviços de saúde – e gerar economia com a diluição dos custos administrativos.

Para a Amil, por sua vez, o negócio amplia a base de clientes e fortalece a capacidade de distribuição no mercado paulista, o mais importante do país. A fatia da empresa em São Paulo vai praticamente dobrar, dos atuais 7,9% para 15,1%.”Essa compra se encaixa perfeitamente na estratégia da Amil. Ela adquiriu a empresa que precisava adquirir”, diz Gewerh.

Consolidação em andamento

O analista do Santander acredita que o negócio também aumenta as chances de a Amil se tornar a grande consolidadora do mercado de saúde, a partir da aquisição, em médio e longo prazo, de outras concorrentes. Alguns dos negócios mais importantes do setor nos últimos cinco anos foram protagonizados pela Medial, ao comprar a Amesp, e pela Amil, ao adquirir a Amico e a Blue Life.

Com uma base maior de clientes e a amplia liderança de mercado, a Amil ganha condições de acelerar o processo de consolidação em curso no setor desde o início da década. Segundo Gewehr, o Brasil contava com 2.273 operadoras de planos dentais e de saúde, no ano 2000, ante 1.273, ao fim do primeiro semestre de 2009.

A situação financeira da Amil, também é favorável. Capitalizada pela abertura de capital promovida em 2007, a companhia contava com 1,1 bilhão de reais em caixa antes da aquisição. Pelos 51,9% das ações da Medial a companhia vai desembolsar 612 milhões de reais, o que deixa uma folga significativa para que a empresa tome fôlego e volte às compras, sem contar a possibilidade de um aumento na alavancagem, que poderia ser executado com relativa facilidade, na opinião de Gewerh.

Dificuldades da operação

Para a Fator Corretora, porém, a Amil. pode esbarrar justamente na incapacidade de absorver as concorrentes que ela adquire. Em relatório assinado pelo analista Iago Whately, a corretora diz que a aquisuição será positiva para a Amil do ponto de vista comercial, mas alerta que a companhia ”tem mostrado dificuldade em integrar os processos e capturar as sinergias de outros ativos adquiridos”.

Na aquisição desta quinta-feira, o risco fica ainda mais evidente por causa das dificuldades que a Medial atravessa, em função da ”falta de capacidade da rede própria e da ineficiência de seus processos internos”.

Whately afirma também que a carteira de clientes da Medial é de baixa qualidade e lembra que, segundo as regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para os planos individuais, os reajustes de preços são definidos pela agência e as operadoras não podem cancelar os contratos.

Isso aumenta o desafio da Amil por indicar que a sinistralidade da Medial só vai convergir para os níveis da empresa compradora após a reestruturação das operações, o investimentos em hospitais e – o que é mais difícil – a mudança no perfil da carteira de clientes da Medial.

Segundo o analista, como o valor oferecido pela Medial (17,2066 reais por ação) já pressupõe que a compradora será capaz de capturar os ganhos de sinergia do negócio, a Amil corre o risco de perceber que pagou caro pela concorrente, caso demore demais para digerir o novo ativo.

A proposta de compra da Amil embutiu um prêmio de 17% em relação à cotação dos papéis da Medial no dia anterior ao fechamento do contrato (14,70 reais). A reação inicial do mercado foi basante positiva. As ações ordinárias da Amil subiram 10,41% nesta quinta-feira enquanto as da Medial avançaram 11,50%.

Entra Brahma, sai Bud

Fonte: Istoé Dinheiro
Por Adriana Mattos

bud

A Ambev anunciou há alguns dias um acordo de patrocínio com a Fifa (Federação Internacional de Futebol) para a Copa do Mundo de 2010, que será realizada na África do Sul. A Brahma será a patrocinadora oficial do evento, ocupando o lugar antes cativo da Budweiser. A iniciativa está em sintonia com a sua estratégia de marketing que prevê a transformação da Brahma em uma marca global. Essa decisão, porém, envolve algo muito maior. Trata-se de um movimento que comprova a intenção da empresa de levar o modelo de gestão consagrado no Brasil para outros países. Nos últimos anos, esse formato revelou-se tão eficiente quanto polêmico. Ao mesmo tempo em que trouxe resultados financeiros substanciais para o grupo, também levou a cervejaria a enfrentar acusações de concorrentes, fornecedores e distribuidores. Vai funcionar no Exterior?

O primeiro sinal dessa estratégia ficou evidente numa ação iniciada discretamente em fevereiro deste ano. Empresas que prestam serviço para a ABInBev receberam uma carta do comando da cervejaria.

O texto informava os novos termos para o pagamento de fornecedores das áreas de mídia, como agências de publicidade e organizadoras de eventos. Segundo o comunicado, o prazo para quitação de débitos com essas empresas passaria de 30 para até 120 dias. “Se você não é capaz de trabalhar com essa mudança, nós podemos buscar um fornecedor alternativo”, informava a carta em seu último parágrafo.

O tom foi tão surpreendente que o ministro da economia da Bélgica, Vincent Van Quickenborne, solicitou investigação aos órgãos de concorrência local para analisar se o grupo estava abusando de seu poder econômico. Essa postura agressiva não é estranha ao mercado brasileiro. Em 2001, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado colheu depoimentos de distribuidores da AmBev que acusavam a cervejaria de reduzir a rentabilidade de seus parceiros no Brasil. Segundo a acusação, eles eram pressionados a diminuir suas margens e aceitar as imposições da AmBev, sob o risco de perderem contratos com o grupo.

caminhãobud

No mais recente relatório de resultados da ABInBev, que comenta a revisão dos contratos com parceiros, uma outra mudança foi comunicada aos acionistas. Os bares e restaurantes da Europa passaram a participar de “programas de lealdade de clientes”. Isso ocorreu principalmente na Rússia, mercado atendido pelas marcas Budweiser e Beck’s. No Brasil, programas semelhantes de fidelidade vêm causando transtornos à AmBev. Em julho, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) multou a empresa em R$ 352,7 milhões. O motivo: a criação em 2003 de um plano de relacionamento, batizado de “Tô Contigo”, com bares, restaurantes e supermercados. Para o Cade, a ação induzia o varejo a dar exclusividade às cervejas da AmBev ou a limitar a comercialização de marcas concorrentes.

Especialistas esperavam pela migração de estratégicas desenvolvidas no Brasil para mercados estrangeiros. “Os brasileiros da InBev são famosos pela visão fortemente financeira do negócio”, diz David Kolpak, analista da Victory Capital Management. “Isso acabaria impactando a Bud de qualquer forma.” Pesada e lenta demais para os padrões da InBev, a Anheuser iria inevitavelmente enfrentar um choque de gestão. A questão era apenas de que forma isso ocorreria. “Ninguém duvidava que, pelo tamanho do desembolso da InBev pela Anheuser, iríamos assistir a uma brutal mudança de estilo que acelerasse ao máximo o retorno financeiro”, diz Marcel Hooijmaijers, analista da Landsbanki/Kepler. “Agora, só não se sabe quando isso vai acabar.”

A espinha dorsal do choque de gestão está baseada em duas ferramentas principais: o ZBB (sigla em inglês para Orçamento Base Zero) e o Blue Ocean, nome dado ao plano de corte de gastos na Anheuser. O ZBB (que neste ano foi importado da AmBev, no Brasil, para a ABI nBev) dá à cervejaria a liberdade para refazer suas planilhas de gastos a cada ano, começando sempre do zero.

Marca de Lugares e Cidades

Fonte: Exame Expresso
Por Patrícia Bento

parisAs marcas eram usadas, já desde a Antiguidade, permitindo identificar a origem dos produtos artesanais. Contudo, foi só a partir da Revolução Industrial, e especialmente a partir dos anos 20, com o aparecimento dos mercados de massa e o desenvolvimento do marketing que as marcas assumiram toda a sua importância.

As marcas ganharam uma crescente expressão económica e social ao longo do último século. Porém, não há uma definição específica de marca. As marcas podem ser representadas por um nome, termo, sinal, símbolo ou design, ou uma combinação de tudo isso, destinado a identificar os produtos ou serviços de um fornecedor ou grupo de fornecedores para diferenciá-los dos outros concorrentes.

Para colocar uma marca num produto é necessário ensinar ao consumidor quem é o produto, utilizando elementos de marca que ajudem a identificá-lo. Os lugares podem ter marcas assim como os produtos e serviços. A marca de lugares e cidades pode englobar-se no contexto de marketing territorial que é utilizado ao serviço da concepção, gestão e promoção dos lugares com o objectivo de aumentar a atractividade junto de públicos internos (cidadãos residentes, trabalhadores e as organizações instaladas na área, que interessa fidelizar) e os clientes externos (cidadãos não residentes, organizações com potencial para se instalarem na área, visitantes de negócio e turistas).

Estudos diversos revelam que marcas poderosas satisfazem necessidades emocionais e funcionais.

No âmbito da actividade do marketing territorial, a marca assume-se como um elemento nuclear. As marcas tornaram-se metáforas para os consumidores. A marca, através da sua dimensão funcional e simbólica, tem a capacidade de consubstanciar e valorizar a identidade que as cidades e regiões detêm promovendo identificação e envolvimento com os públicos e simultaneamente distinguindo-a de territórios concorrentes. Cada vez mais, as cidades e as regiões urbanas competem com outros lugares para a atenção, investimento, visitantes, clientes, talento, eventos, entre outros.

Uma estratégia de marca de um local consiste num plano para definir a mais realista, mais competitiva e mais apelativa visão estratégica do país, região ou cidade. Esta visão tem então que ser satisfeita e comunicada. As melhores estratégias reconhecem que o principal recurso da maior parte dos locais reside tanto em quem lá vive como nas coisas que são feitas e realizadas naquele local.

A gestão da marca territorial remete para a construção de um conjunto de imagens do território de forma a promover identificação, notoriedade, “goodwill” (valorização do terreno pela sua localização), envolvimento e comportamentos favoráveis ao desenvolvimento territorial por parte dos grupos-alvo e tomando por base uma actuação de marketing que contribua para promover o desenvolvimento de uma identidade territorial positiva e competitiva.

A marca é uma estratégia “pull” que fomenta a procura de informação pelo estímulo comunicacional e visa desenvolver interesse e envolvimento com a cidade através de um posicionamento pré-determinado. A estratégia de comunicação é traçada em função dos objectivos, geralmente relacionados com o aumento da notoriedade.

O maior desafio da Marca Cidade é transformar algo que pode apenas ser uma “commodity” numa experiência de vida, de turismo ou de investimento em que sentimos e vivemos algo diferente com esse valor acrescentado, económico ou emocional. A marca não muda a realidade, mas a realidade está a mudar a marca. A marca, de forma estratégica e através do recurso a diversos instrumentos, divulga de forma adequada o posicionamento territorial contribuindo para a aproximação entre o posicionamento pretendido e o posicionamento efectivamente alcançado.

Bibliografia:
CLIFTON, Rita, John Simmons (2005),O Mundo das Marcas, Lisboa, Actual Editora;
GAIO, S. e Gouveia, L., O Branding Territorial: uma abordagem mercadológica à Cidade, Revista A Obra Nasce. Edições UFP. ISSN 1645-8729, 2007;
KOTLER, P., C. Asplund, I. Rein e D. Haider (1999) “Marketing Places Europe, How to Attract Investments, Industries, Residents and Visitors to Cities, Communities, Regions and Nations in Europe” Prentice Hall, London; L INDON, Denis, Jacques Lendrevie, Julien Lévy, Pedro Dionísio, Joaquim Vicente Rodrigues (2004) Mercator XXI – Teoria e Prática de Marketing, 10ª Edição, Lisboa: Publicações Dom Quixote

Patrícia Bento, Mestranda em Marketing, Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, Membro da APFEUAlg – Associação de Pós-Graduados da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve

A matemática de Trabuco

Fonte: Istoé Dinheiro
Por Denise Bococcina

trabuco

São seis mil novas contas por dia – de clientes que nunca tinham visto seu nome num cartão de débito bancário ou num talão de cheques. Trata-se do maior ritmo de inclusão bancária do mercado brasileiro. No total, o Bradesco, planeja inaugurar 1,6 milhão de novas contas neste ano – e na quarta-feira 18, ao abrir uma agência em Novo Santo Antonio, cidade de 2,5 mil habitantes em Mato Grosso, chegou a 100% dos 5.564 municípios brasileiros.

“Encerramos o ciclo da inclusão geográfica e estamos prosseguindo no ciclo da inclusão bancária, desta vez das pessoas que vivem em comunidades de baixa renda nas grandes metrópoles. Queremos formar novos empreendedores, surfando na extraordinária mobilidade do Brasil”, afirmou à DINHEIRO o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, apresentando o plano por trás da matemática do banco.

Aproveitar a mobilidade social brasileira é a estratégia principal do banco, que não vê espaço para novas aquisições no mercado brasileiro e quer crescer de forma orgânica ampliando sua presença em segmentos que hoje não são atendidos pelo sistema bancário. A se manter nos próximos anos o ritmo de crescimento da economia de 5% projetado para 2010, Trabuco calcula que 100 milhões de novos consumidores entrarão no mercado no período de 15 anos.

“Mantendo a participação de 20% do mercado bancário, teremos 20 milhões de novos clientes”, diz ele. A rede atual tem 35,8 mil unidades entre agências, postos de atendimento exclusivos ou instalados em lojas, para dar conta de 53,4 milhões de clientes, donos de 20,7 milhões de contas-correntes, 35 milhões de cadernetas de poupança, 30 milhões de apólices de seguro e 4 milhões de financiamentos.

A outra estratégia do banco para buscar a liderança do sistema privado, perdida com a compra do Unibanco pelo Itaú, é ampliar a oferta de crédito. A carteira de R$ 215 bilhões até setembro, com crescimento de 10,2% em 12 meses, tem potencial para se expandir ainda mais. De acordo com o índice de Basileia, o banco pode emprestar outros R$ 200 bilhões.

Trabuco acha que a próxima década será a da expansão do crédito imobiliário – hoje uma carteira menor do que a de financiamento de veículos – e passar dos atuais 3,5% do PIB para 11,7% até 2020. A comparação com outros países deixa claro o potencial.

O volume total de crédito na economia brasileira é de apenas 46% – para se ter uma ideia, no Chile é de 69%, na França é de 103% e nos Estados Unidos é de 187%. E tudo, diz Trabuco, sem incorrer nos erros que levaram à crise americana. “No Brasil vamos manter as boas práticas bancárias.” Leia a seguir sua entrevista.

“Depois da inclusão geográfica, vem o ciclo da inclusão social”bradesco

DINHEIRO – Quantas pessoas entraram no mercado bancário e qual é o potencial?
LUIZ CARLOS TRABUCO
– Somente no Bradesco nós abrimos seis mil contas de novas inclusões bancárias por dia. Temos oito milhões de contratos de financiamentos de até R$ 500. Talvez seja o maior exemplo de microcrédito do mundo.

DINHEIRO – Qual é o impacto da nova classe média nesse processo?
TRABUCO
- Hoje temos uma população em quase 200 milhões. Em 2040, ela chegará a 250 milhões. Teremos um bônus, ou uma janela demográfica, com a chegada à idade adulta e ao mercado de trabalho de um contingente de cerca de 100 milhões de novos consumidores. Com isso, o Brasil vai dar um salto. Em 2016, já seremos a quinta economia do mundo, com a manutenção do crescimento de 5%. Em comparação aos BRICs, nós temos ainda mobilidade social, com impacto no mercado de consumo.

DINHEIRO – E como o Bradesco pode se beneficiar dessa situação?
TRABUCO
- Queremos manter o nosso market share de 20%. Serão 20 milhões de novos clientes potenciais.

DINHEIRO – O Bradesco está se internacionalizando?
TRABUCO
- Temos ainda de penetrar muito na sociedade brasileira. E o esforço principal é voltado para o mercado local. Neste ano, compramos o banco ibi, que era ligado à cadeia de lojas C&A. Vamos oferecer serviços financeiros e seguros para as 171 lojas C&A. Adquirimos também uma empresa de odontologia, e por ela queremos chegar aos microsseguros. A estratégia é aumentar a presença no mercado brasileiro, onde a taxa de retorno é maior.

DINHEIRO – Qual é o total de empréstimos para pessoas jurídicas?
TRABUCO –
O crédito chegou a R$ 215 bilhões em setembro, sendo R$ 79 bilhões para grandes empresas, R$ 60 bilhões para micro, pequenas e médias empresas e R$ 75 bilhões para pessoas físicas. O crédito cresceu 10% em 12 meses. O consignado cresceu 22%. O que mostra que o crescimento de renda do assalariado aumentou sua capacidade de endividamento. Mas vamos crescer ainda mais.

DINHEIRO – O que é necessário para que esses 100 milhões de pessoas que entrarão no mercado tenham poder de compra?
TRABUCO
- As políticas públicas são fundamentais para que o país do futuro não seja um país com perspectivas passadas. É evidente que se em dez anos nós não vencermos o déficit habitacional, que é estimado em 8 milhões de residências, haverá oito milhões de famílias que não têm endereço, que não têm domicílio. Sem domicílio, elas não têm referência. Elas até podem ter telefone celular, mas não conseguem sequer pedir pizza à noite por telefone.

DINHEIRO – E como a falta de endereço afeta a bancarização?
TRABUCO
- O endereço é o primeiro passo para a bancarização. Sem isso a pessoa não consegue ingressar no sistema. Outro desafio é a formalização do mercado de trabalho. Esses dois desafios estão na agenda do governo. O crédito imobiliário responde hoje por 3,5% do PIB brasileiro. A nossa estimativa é chegar a 2020 com 11,7%.

DINHEIRO – E existe algum risco nesta expansão, de uma bolha como nos EUA?
TRABUCO
- O que aconteceu com eles foi uma lição. E tem uma grande diferença. Nos Estados Unidos o crédito é concedido ao imóvel, enquanto no Brasil é concedido à pessoa, no limite da renda, limitado a no máximo 80% do valor do imóvel. Nos Estados Unidos conforme o imóvel ia subindo de valor o crédito ia acompanhando, ficando dissociado da renda. A boa prática bancária vai continuar no Brasil. No passado, talvez nós parecêssemos antiquados, atrasados, em relação aos Estados Unidos. Mas agora se vê que os critérios que adotamos são de boas práticas bancárias.

DINHEIRO – E o sr. vê uma redução na taxa de juros? Hoje a taxa ainda é muito elevada em termos internacionais.
TRABUCO -
Já temos financiamento de até 8,9% mais TR, para imóveis de até R$ 120 mil reais, com prazo de até 30 anos. Os juros cairão, por uma questão de convergência. O Brasil está inserido no processo de globalização. Ele vai ter que se conectar com um juro mais baixo.

DINHEIRO – O sr. acha que a Selic vai cair em 2010?
TRABUCO
- A Selic até pode subir, se o Banco Central achar necessário um movimento de contenção da economia. Mas passado este momento, a próxima tendência é de baixa. E de baixa acentuada. E quando houver essa baixa, vamos ter um aumento de volume no crédito.

DINHEIRO – Como está o crédito hoje?
TRABUCO
– O crédito está voltando ao nível pré-crise. Nós aumentamos recentemente o prazo do capital de giro em 50%.

DINHEIRO – Que tipo de investimento as empresas estão fazendo?
TRABUCO
- Hoje as empresas precisam de capital de giro para recompor estoques. Mas já estão investindo em mais produção. O repasse de linhas do BNDES chegou a R$ 15 bilhões em setembro, alta de 21%.