O professor indiano Raj Sisodia, fundador do movimento capitalismo consciente, falou com exclusividade à DINHEIRO:
O que significa capitalismo consciente?
Trata-se de uma nova maneira de pensar os negócios. Sempre assumimos que a meta principal dos empreendedores é ganhar dinheiro. Mas, analisando a história das empresas, descobrimos que a maioria delas é criada por um motivo que é mais do que a simples busca pelo lucro. O que os empreendedores querem, geralmente, é cumprir uma missão e causar algum impacto no mundo. Isso é o que chamamos de propósito maior do negócio e é a base do capitalismo consciente. As empresas que buscam fazer a diferença são as que, no final das contas, acabam tendo um desempenho melhor e mais lucro.
Do que se trata, exatamente, esse propósito maior do negócio? É uma meta ou um conjunto de valores que a empresa precisa seguir?
Vou dar um exemplo. Quando foi criada, a varejista Whole Foods, hoje a maior rede mundial de produtos orgânicos, tinha como propósito mudar a maneira como as pessoas pensam sobre comida. O objetivo não era apenas vender alimentos e ganhar dinheiro. Eles se importam com a saúde dos clientes e buscam ensiná-los a ter uma vida mais saudável. Fazendo isso, a empresa consegue melhorar a qualidade de vida dos consumidores. É nisso que os seus fundadores e todos os funcionários realmente acreditam. Esse é o propósito do seu trabalho. E, quanto mais dinheiro ganham, mais eles acreditam nesse propósito.
Mas como aplicar o modelo em mercados como o de petróleo ou o de cigarros?
Empresas de qualquer setor podem adotar o capitalismo consciente. No caso do mercado de óleo e gás, o propósito das empresas pode ser como tornar a produção de energia mais eficiente e sustentável. O conceito também não está associado somente à maneira como você faz negócios, mas ao modo como as pessoas são tratadas dentro e fora das organizações. Muita gente passa 14 horas no trabalho todos os dias. As companhias precisam se preocupar em como inspirar as pessoas e com o que vai acontecer com elas no futuro. Agora, em relação ao tabaco, é um pouco mais difícil. Eu diria que as fabricantes de cigarro deveriam se preocupar em encontrar outras formas de satisfazer seus consumidores.
Uma de suas propostas é um novo sistema operacional para as empresas. Como isso funciona?
Digo que é um sistema centrado nas relações humanas. As pessoas costumam ser tratadas como um meio para um fim. Ou seja, meu objetivo é ganhar dinheiro e, para isso, eu preciso ter funcionários e clientes. Por conta disso, a maioria das empresas acaba usando o medo de perder o emprego como um fator motivacional. Isso tende a gerar muito estresse. O medo faz com que as pessoas busquem apenas sobreviver. Em um ambiente assim, não há colaboração ou inovação. O ideal é que a companhia busque o engajamento dos funcionários, convencendo-os de que estão trabalhando com um objetivo. Grandes líderes, como Martin Luther King e Gandhi, sempre usaram o amor para engajar as pessoas em suas causas. Eles devem servir de exemplo para as empresas. É muito mais fácil trabalhar em um ambiente em que o amor e o respeito são o mais importante. Ser consciente significa entender as consequências de suas ações. Em uma empresa consciente, todos são importantes à sua maneira.
A questão é que muitas empresas com ambientes hipercompetitivos, como a cervejaria Ambev, são extremamente lucrativas.
É possível atingir um ótimo desempenho usando o medo como motivação. Mas será por um período limitado de tempo. Eu poderia correr muito rápido se estivesse sendo atacado por um leão. Só não sei quanto tempo aguentaria. Os seres humanos evoluem rápido. No mundo atual, há muita tecnologia e informação. Os valores da sociedade estão mudando. Cada vez mais pessoas se preocupam com o propósito das suas ações. As empresas que não perceberam isso podem até parecer grandes e fortes. Mas vale lembrar que os dinossauros também eram grandes e fortes e acabaram extintos.
É possível afirmar que as empresas conscientes são mais lucrativas?
Sim, absolutamente. Pesquisas que fiz para um dos meus livros mostram que, em longo prazo, as empresas conscientes conseguem desempenho mais de duas vezes melhor. É muito simples. Basta olhar para as companhias que lideram o ranking das melhores empresas para trabalhar. A relação entre um bom ambiente de trabalho e o desempenho das companhias na bolsa, por exemplo, é evidente.
Qual é o primeiro passo a ser dado para se tornar uma empresa consciente?
O primeiro passo que o CEO ou o empresário têm de tomar é fazer uma autoanálise. Ele precisa responder a algumas perguntas. A primeira é: no que ele realmente acredita? Outra questão é: qual o motivo de sua empresa existir? Por fim, o que vai acontecer se a companhia desaparecer? Se a resposta para esses questionamentos for ganhar ou deixar de ganhar dinheiro, ele vai precisar de ajuda. Em alguns casos, é preciso voltar à época da fundação da empresa para responder a essas questões.
Como o sr. vê a evolução desse conceito nos países emergentes, como o Brasil e a Índia?
Vejo com certa preocupação. Há uma tendência, nesses países, de achar que não é preciso se preocupar com isso porque há crescimento econômico e investimentos. Trata-se de um grande desafio. O fato é que se você cresce da maneira tradicional acaba gerando uma série de efeitos colaterais negativos, especialmente em relação à qualidade de vida das pessoas. Sem contar que a melhor hora para realizar mudanças é quando tudo está indo bem.
O capitalismo, tal como é hoje, vai acabar?
O capitalismo não pode acabar. Isso seria um desastre. Agora, esse modelo de capitalismo de Wall Street, centrado nas finanças, não tem futuro. O que acontece é que o rabo está abanando o cachorro. Analistas financeiros não são capazes de dizer como uma empresa deve ser gerida. Eles não entendem as complexidades dos negócios, apenas possuem modelos matemáticos. Mas negócios não são apenas números, existem pessoas e relações humanas envolvidas. A cobiça não é uma virtude.
“As empresas precisam gerar valor para todos”
O empresário Abilio Diniz, presidente do conselho do Grupo Pão de Açúcar e da BRF, conheceu o conceito de capitalismo consciente há três anos. Ele fala sobre o tema nesta entrevista exclusiva à DINHEIRO:

Quando e como o sr. passou a seguir os mandamentos do capitalismo consciente?
Fui apresentado há cerca de três anos ao Raj Sisodia, por uma executiva do Pão de Açúcar. Li o primeiro livro dele e achei que tinha tudo a ver com o que estávamos pensando em relação ao futuro da empresa. Acabei convidando-o a vir ao Brasil e ficamos amigos. Hoje, trocamos muitas experiências e informações. Tem sido muito gratificante.
Segundo o professor Raj, o primeiro passo para aderir ao capitalismo consciente é fazer uma autoanálise. O sr. já fez isso?
Com a gente foi um pouco diferente. Quando comecei a ler sobre o conceito, percebi que já estava inserido nele. O Grupo Pão de Açúcar sempre foi uma empresa consciente, preocupada com o que acontece à sua volta. Isso sempre foi um dos valores do nosso negócio.
Qual é o seu propósito maior?
O lucro é muito importante e tem de ser um objetivo. Mas existe algo além do lucro, que é o orgulho do que você faz. As empresas precisam gerar valor para todos. É preciso ter compromisso com as pessoas, cultivar a harmonia e a felicidade. Fazendo isso, o dinheiro toma conta dele mesmo.