Fonte: Época Negócios
Por Jean-Claude Larreche
Qual o segredo das empresas que dão saltos quânticos em vendas e lucros por anos
seguidos, enquanto concorrentes avançam pouco ou estacionam? Um estudo revela:
não é mágica, mas uma excepcional habilidade para se antecipar, criar e lançar
produtos matadores
Produzir crescimento lucrativo ano após ano – eis o principal desafio dos líderes empresariais. Muitas empresas enfrentam dificuldades para alcançá-lo, outras conseguem aos solavancos, mas poucas excedem com consistência. Como conseguem? A resposta está no efeito momento.
Trata-se de um poderoso fenômeno pelo qual, em condições específicas, um crescimento orgânico excepcional é criado e se alimenta de si mesmo. O momento acumula energia do próprio sucesso e fornece aceleração cada vez maior para empresas ágeis o suficiente para aumentá-lo e aproveitá-lo. Essas empresas avançam de sucesso em sucesso com uma facilidade desconcertante. O crescimento impulsionado pelo efeito momento exige uma combinação sutil de diversos elementos. Essa combinação pode ser proposital ou ocorrer por acidente, mas sua mágica só funciona de verdade se for executada dentro de uma cultura especial e com certo tipo de liderança.
Foi o impulso por trás do desempenho extraordinário da Microsoft, do Wal-Mart e da Dell – até que perderam o momento e lutam até hoje para recuperá-lo. A mesma energia quase irresistível está impulsionando hoje a Apple, a Toyota, a Virgin e a Nintendo. Mas caso não consigam mantê-lo com inteligência, verão o momento por trás de seu crescimento desaparecer. Essa é a parte complicada: o momento é transitório. Sem cuidados constantes, sua força pode se mostrar efêmera.
O impulso que fornece a base inicial necessária para desenvolver o momento vem de novas ideias e descobertas sobre o mundo do cliente. Boa parte do sucesso do videogame Nintendo Wii vem da simples compreensão de que ficar se mexendo é mais divertido que ficar sentado, e que quando mexem seus corpos as pessoas interagem mais naturalmente com quem está ao seu redor do que quando estão sentadas. Usar os braços para controlar uma raquete de tênis, um bastão de beisebol ou uma luva de boxe dá uma sensação mais real do que usar o polegar, assim como ficar de pé ao lado dos oponentes, em vez de sentar ao seu lado, permite que os jogadores se olhem mais, se toquem mais, conversem mais e fiquem mais envolvidos e ativos em todos os aspectos. Em suma, todos se divertem mais.
Uma estratégia bem-sucedida exige que uma ambição seja compartilhada por toda a empresa: satisfazer, reter e envolver os clientes
Para descobrir essas novas ideias, no entanto, as empresas precisam explorar o espaço de seus clientes, sua visão de mundo e as emoções que motivam seu comportamento. Nem todos os caminhos para a estratégia de momento podem ser indicados tão facilmente pelos clientes. Como dizia Henry Ford, “se eu tivesse perguntado aos clientes o que queriam, teria inventado um cavalo mais rápido”. A exploração significa estar à frente de todos, incluindo os clientes: são as ideias reveladas por essas explorações que descobrem fontes originais de valor e impulsionam o crescimento excepcional. Para explorar essas oportunidades com sucesso, as empresas precisam elaborar ideias com grande poder de atração de clientes, como ocorreu com o Wii.
São ofertas tão pertinentes, irresistíveis e poderosas que os clientes se sentem atraídos pelo seu magnetismo. Não é apenas outro nome para desenvolvimento de produtos. Isso inclui a imagem, um relacionamento, a confiança, o status trazido por ser “membro” do “clube” de usuários. Envolve também moldar todos os aspectos para aumentar a percepção de valor para o público-alvo. Nada ilustra melhor a capacidade da Toyota de elaborar uma oferta poderosa que gera impulso do que o Scion, um modelo de carro para motoristas mais jovens. Para eles, o valor está na customização e na individualidade, e a internet possui um papel crítico em suas vidas. O que fez a Toyota? Concebeu um carro que não se parece com o do papai e da mamãe, que pode ser projetado online pelo cliente e recheado de opcionais, como sistemas de som de vanguarda e desenhos radicais na carroceria.
O Wii e o Scion são exemplos de produtos que não poderiam ter sido criados da maneira tradicional. O processo de descoberta que revela ideias irresistíveis é muito mais ambicioso que a análise detalhada de grandes quantidades de dados que qualquer empresa realiza. Análise é bom, mas a dependência excessiva do cálculo racional, em contraste com a exposição à realidade subjetiva do mundo de cada cliente, possui sérias limitações e corre o risco de ignorar ideias valiosas.
Richard Branson deu o nome de “Virgin” (virgem) às suas empresas e produtos para indicar que nada sabia sobre os negócios com os quais estava se envolvendo. A mensagem à concorrência era clara: “Eu nada sei, e essa é a minha grande força. Vou desenvolver novas soluções. Você pode achar que a experiência é sua grande vantagem, mas é seu calcanhar de aquiles: você está preso à tradição”. Branson inovou em diversos mercados, entre eles música, varejo e companhias aéreas.
Em nenhum desses setores a Virgin realizou inovações tecnológicas. Todas foram impulsionadas por um melhor entendimento de seus clientes. Das várias empresas do grupo Virgin, a companhia aérea Virgin Atlantic destaca-se como um dos exemplos mais completos de empresas movidas a momento. Devido ao seu foco nos clientes, a Virgin Atlantic sempre se destacou por fazer as coisas de um jeito diferente. Ela criou um novo nome, “Upper Class” (classe alta) para um serviço com padrões de primeira classe e preços de classe executiva. Foi a primeira a oferecer serviço de limusine, check-in no estacionamento e área de espera diferenciada. Também foi a primeira a oferecer sistemas de entretenimento em vídeo a todos os passageiros.
VIRGIN ATLANTIC
Um alfaiate na sala executiva no aeroporto de Heathrow, em Londres, tira as medidas do passageiro, enquanto ele aguarda o embarque para Hong Kong. Uma alfaiataria em Hong Kong recebe as medidas e põe mãos à obra enquanto o cliente voa. O terno feito sob medida, já passado, é entregue ao passageiro quando ele chega ao destino. É uma história que se conta aos amigos, produzindo boca a boca positivo para a empresa. Inovações como essa surgem da busca contínua por mais valor para os clientes. A equipe da Virgin é excelente na exploração aberta que gera ideias irresistíveis.
Entender as necessidades antes do próprio cliente
Por muitos anos, a BMW conseguiu ter ideias irresistíveis sobre o que os clientes realmente desejavam. Os níveis de serviço, o design e o marketing integrado que marcavam seus produtos e serviços eram resultado não só de uma engenharia esplêndida visível e glamourosa mas também do ato mais simples e menos visível de prestar atenção nas necessidades dos clientes e enxergar tendências.
Um exemplo excelente foi a integração do iPod ao sistema de som dos carros. A BMW foi a primeira montadora a entender o potencial do iPod, o aparelho eletrônico mais legal de sua geração. A empresa o integrou aos seus carros em junho de 2004, seis meses antes de seu concorrente mais próximo. Os motoristas da BMW podiam simplesmente colocar o iPod em seu encaixe e operá-lo com os controles normais do volante e do painel. Muitas outras montadoras seguiram o modelo em 2005, incluindo a Volvo, a Ferrari e a Honda.
É importante notar, no entanto, que a Ford e a General Motors demoraram até agosto de 2006 para correr atrás do prejuízo e entender que seus clientes também gostariam de ter essa função. Dois anos! Como isso é possível?
Atrasos assim ocorrem porque empresas sem momento tendem a depender demais de análises de pesquisa de mercado. Elas nunca têm ideias como essa. Seus questionários provavelmente não continham a pergunta “Em uma escala de 1 a 5, qual seria a utilidade para você de um encaixe para o iPod no carro?”. Mas os executivos de uma empresa aberta a descobertas passam algum tempo com seus clientes e percebem que as pessoas que estão ouvindo seus iPods sempre seguem o ritual de remover os fones ao entrar em seus carros. É nesse momento que a lâmpada acende sobre suas cabeças com os dizeres: “Se gostam dessas coisas tanto assim no lado de fora, por que não iriam gostar ainda mais dentro de seus carros?”. Isso é ter ideias sobre o cliente.
As empresas inteligentes devem entender as necessidades melhor do que os próprios clientes conseguem ou estão dispostos a expressar. A descoberta de ideias irresistíveis nos permite uma compreensão melhor do que é capaz de motivar esse valor. Ao explorar o que é valorizado pelos clientes, é preciso ir além das óbvias necessidades financeiras e funcionais, e trabalhar no entendimento das motivações humanas mais profundas que estão por trás desse valor. Esse processo entra em contato com os sonhos, as fantasias e os pesadelos dos consumidores para chegar à essência de suas emoções.
Essa investigação é um processo eterno. Por exemplo, a BMW e outras montadoras enfrentam hoje o desafio de descobrir os novos elementos de design que os clientes mais valorizam em um momento em que uma parcela cada vez maior da população está preocupada com problemas ambientais.
Uma estratégia de momento bem-sucedida exige que uma ambição seja compartilhada por toda a empresa, um objetivo que se espalhe pelos diversos níveis da organização. Todos precisam se concentrar em satisfazer, reter e, acima de tudo, envolver os clientes. Líderes inspiradores, como Richard Branson na Virgin, Steve Jobs na Apple, Lou Gerstner na IBM e Sam Walton nas primeiras três décadas do Wal-Mart, foram excelentes exemplos disso.
Mas o que é preciso para fazer um CEO dar pulos de alegria? Daniel Vasella, presidente da Novartis, uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo, descobriu a resposta em abril de 1999, quando recebeu um relatório sobre um novo fármaco desenvolvido por sua divisão de oncologia. Cobria a primeira fase de pesquisa de um produto conhecido na época como STI571, e mais tarde batizado de Glivec, desenvolvido para tratar uma forma de câncer chamada de leucemia mieloide crônica (LMC). Na época, havia cerca de 40 mil pacientes diagnosticados sofrendo de LMC no mundo todo, com uma expectativa de vida de apenas quatro ou cinco anos após o diagnóstico. Devido aos altos custos envolvidos e à pequena população de pacientes, um cálculo puramente financeiro teria mostrado que não valia a pena desenvolver e produzir o remédio. Contra esse cenário, os resultados na mesa de Vasella mostravam uma eficácia incrível de 100%. O remédio tinha o potencial real de prolongar a vida dos pacientes. Apesar de uma população de pacientes tão pequena representar uma oportunidade de negócios aparentemente limitada, Vasella tornou o Glivec uma prioridade urgente. Ele sabia que vidas se perderiam a cada dia que o produto não chegasse ao mercado. Normalmente, seria preciso mais de uma década para levar um medicamento da primeira fase de pesquisa até o lançamento, dez anos em que os pacientes continuariam a morrer. Envolvendo funcionários, clientes e stakeholders importantes para que compartilhassem de sua paixão – foi assim que Vasella conseguiu construir um momento interno e externo que impulsionou um desempenho inédito. Com a força desse momento, o Glivec conseguiu chegar ao mercado em menos de três anos e colocou a Novartis Oncology no caminho para se tornar uma empresa movida a momento.
SWATCH
O Swatch é um “acessório de moda que por acaso também é um relógio”. Essa proposta de moda poderosa e com alta aceitação evoluiu progressivamente. A Swatch levou bastante tempo para descobrir e cristalizá-la, mas ela marca claramente que tipo de cliente provavelmente compra um Swatch e o que a empresa espera dele. Não é apenas uma premissa de comunicação. A proposta é apoiada por designs inovadores que são renovados constantemente. Mais de 20 anos após sua criação, a Swatch ainda está lançando novas tendências e crescendo de modo lucrativo.
NINTENDO
Apesar de o público-alvo do Nintendo Wii ser mais endinheirado que os consumidores tradicionais, sua maior vantagem em termos de patrimônio financeiro é que, diferentemente dos fanáticos por jogos eletrônicos mais jovens, esses consumidores não exigem desempenho máximo em termos de velocidade, gráficos e outros componentes. Esse fator permitiu que a Nintendo usasse hardware muito mais lucrativo que o de seus concorrentes, habituados a vender seus equipamentos a preço de custo e lucrar apenas com o software. A combinação de baixos custos de produção e umnovo perfil mais afluente de consumidores resultou em um aumento significativo no patrimônio da empresa.
O que um “Heureca!” faz pela empresa
O momento pode ser criado seguindo-se uma estratégia , ou seja, um conjunto de ações coerentes centradas na criação das condições específicas. Mas como, exatamente, esse fenômeno é provocado? A combinação especial de fatores que cria o crescimento excepcional é importante demais para ser deixada ao darwinismo dos empreendedores ou à sorte das empresas. Precisamos de um processo sistemático para implementar uma estratégia de momento. O que um processo como esse envolveria? A história do Glivec nos dá algumas pistas.
O mais importante foi o “heureca!” do doutor Vasella quando percebeu o potencial de valor desse novo remédio e decidiu acompanhá-lo do começo ao fim, apesar do tamanho aparentemente pequeno da população de pacientes. O valor que percebeu era amplo: atendia pacientes, suas famílias, seus enfermeiros, a comunidade médica em geral e a própria Novartis. Apesar de parecer um pequeno potencial econômico, seu potencial em termos de responsabilidade social e orgulho dos funcionários era enorme.
E essa é uma questão crucial. Empresas movidas a momento se concentram nos principais stakeholders. Entendem que o conceito de cliente é muito mais amplo que apenas a pessoa que compra o produto. Vasella sabia que os clientes não eram apenas as pessoas comprando o remédio. Diversos stakeholders estavam envolvidos, cada um oferecendo algo diferente à Novartis. Porque entendia o valor diferente que o Glivec tinha para uma grande gama de pessoas interessadas, assim como o valor de cada grupo para a empresa, Vasella sabia que seu dever era se envolver com todos esses diferentes clientes. Grandes líderes equilibram as demandas de cada grupo gerando valor para cada um deles de modo a envolver todos no processo.
Veja o Skype, uma empresa de telefonia via internet criada em 2003 por dois jovens escandinavos, Niklas Zennström e Janus Friis. Depois de menos de três anos no setor, o Skype tinha 53 milhões de usuários. Em 2005, a empresa foi vendida ao eBay por mais de US$ 3 bilhões, um valor incrível para 36 meses de trabalho. Como o Skype conseguiu criar tanto valor em tão pouco tempo? O momento do Skype nasceu originalmente de seu entendimento superior dos clientes potenciais, nesse caso, os usuários de internet de banda larga. Essa ideia irresistível foi o ponto de partida da jornada em direção a um enorme potencial. Os clientes do Skype já possuem acesso a uma conexão de internet de alta qualidade para acelerar sua capacidade de enviar e receber informações.
Eles usam serviços de chat, mas também precisam se comunicar oralmente. Infelizmente, um telefone fixo exige equipamentos e fiação e ocupa mais espaço na mesa. E a telefonia tradicional não permite a transmissão de vídeo, diferentemente da banda larga. Essa foi a ideia inicial, a necessidade de uma ferramenta que integrasse conversa pela internet, comunicação em áudio e transmissão de vídeo no mesmo PC usado para outras tarefas. O que os consumidores do Skype valorizam? A conveniência na comunicação em texto, áudio e vídeo é o ponto de partida. Além disso, sendo usuários de informática, querem um serviço confiável e, como qualquer outro consumidor, valorizam custos baixos. Como fazem uso intensivo da internet, também se sentem conectados a uma cultura de livre disseminação de informações.
TOYOTA
O Prius oferece um pacote de valor irresistível para os habitantes de grandes cidades com consciência ambiental. Com sua baixa emissão de carbono, praticidade para uso nas cidades e associação com celebridades, o Prius é mais do que um carro: é uma afirmação sobre quem é o motorista. Enquanto as montadoras americanas buscaram impulsionar o crescimento com promoções de vendas e descontos para movimentar seus estoques, a Toyota tornou-se a maior e mais lucrativa montadora do mundo aproveitando uma onda fantástica de momento. Por trás de todas as suas conquistas está uma compreensão profunda de seus clientes.
RED BULL
Eventos para promover o envolvimento dos consumidores devem ser planejados com um público-alvo claro em mente. Uma empresa que teve bastante sucesso com essa abordagem é a fabricante de energéticos austríaca. Coerente com a promessa da marca (“Red Bull te dá asaaaas”), a empresa promove o Air Race, um evento com manobras aéreas para envolver o público jovem, seu alvo. Esse envolvimento é o grande responsável pelo crescimento explosivo da bebida em todo o mundo.
O brilhantismo foi reconhecer o valor do público
A palavra livre possui um significado emocional para esses usuários, não só financeiro. Enfim, como são pessoas comunicativas, sentem prazer ao compartilhar a diversão de se comunicar. Esse é o valor irresistível.
O patrimônio que esses clientes oferecem ao Skype pode ser mais difícil de enxergar. O produto é gratuito, então como o Skype pode extrair valor? O jeito mais óbvio é a venda cruzada de serviços adicionais. Por exemplo, nem todos os amigos e familiares dos clientes estarão dispostos ou serão capazes de realizar ligações telefônicas via computador. Os clientes do Skype, no entanto, ainda gostariam de conversar com esse pessoal menos tecnológico.
Assim, em 2004, o Skype lançou seu primeiro serviço com geração de receita, chamado SkypeOut. Esse serviço permite que os assinantes façam ligações de seus PCs para telefones fixos em diversos países por cerca de dois centavos por minuto, independentemente de onde a ligação é realizada. Outros produtos pagos se seguiram, e o Skype até estabeleceu parcerias com os fabricantes de fones de ouvido e aparelhos manuais ligados à internet 1.0.
Mas o patrimônio dos clientes era mais do que uma oportunidade de venda cruzada. O brilhantismo da empresa ao se concentrar em usuários de internet de banda larga foi reconhecer seus atributos especiais: eles estão em contato regular com sua rede de amigos, familiares e colegas; são os primeiros a adotar novos produtos de comunicação; são um alvo valiosíssimo de publicidade; levaram o poder das recomendações pessoais a um novo nível; e possuem capacidade de formar redes sociais. Esse é um patrimônio irresistível.
O próximo passo foi integrar esse entendimento a um modelo de negócios superior, ou seja, uma oferta poderosa. Olhando depois, o potencial de um negócio que oferece comunicação de voz gratuita, que aproveita as redes de clientes para realizar marketing viral e que lucra com a venda cruzada de produtos pagos para o mesmo grupo de usuários, é estupidamente óbvia. Mas só depois. Foi o entendimento detalhado de seus clientes e a engenhosidade dos fundadores do Skype que permitiu que criassem a oferta poderosa que ninguém mais estava vendo. A última genialidade do marketing do Skype foi: “o mundo inteiro pode falar de graça”. Não havia modo melhor de se conectar com a geração da internet.
O brilhantismo dessa frase, o poder dessa comunicação, marca o ponto em que o projeto de ofertas poderosas, potencializadas pelo impulso adquirido pela empresa, encontra-se com a execução necessária para iniciar o momento.
IKEA
Sua proposta é tornar móveis de concepção inteligente acessíveis às massas. A empresa cria valor transferindo alguns tradicionais custos de fabricação para seus clientes, já que eles precisam montar os próprios móveis. O público-alvo da rede de varejo sueca são clientes com carteiras magras. Para eles, o dinheiro é mais importante do que a rapidez e o conforto. Buscando economizar, eles estão preparados para investir seu tempo indo à loja, perdendo-se em seu labirinto e, depois, montando em casa os próprios móveis.
SKYPE
A oferta poderosa do Skype foi executada com perfeição. Primeiro, o serviço era simples de usar, fácil de instalar e robusto. Em suma, cumpria o que prometia: uma grande vantagem sobre muitos outros novos produtos tecnológicos. Acima disso, o Skype sabia que seus usuários há anos se sentiam vítimas de cobranças excessivas por parte das empresas de telefonia e teriam muita satisfação em se livrar dos altos preços das conexões de banda larga vendidas por elas. A satisfação é uma resposta emocional, e para essas pessoas o prazer de derrotar uma grande corporação como uma empresa de telefonia seria uma doce recompensa.
Propulsores, pioneiros e paredões
Como foi feito o estudo que comprovou, na prática, o “efeito momento”
Investigamos o efeito de investimentos de marketing no crescimento de corporações da lista das mil maiores do mundo, entre 1985 e 2004. Para tanto, classificamos as empresas em três grupos: Propulsores, Paradões e Pioneiros. Propulsores são empresas que buscam aumentar as vendas por meio de aumentos agressivos nos gastos relativos em marketing. Neste grupo, a proporção de investimentos em marketing em relação a vendas cresceu 3% em 20 anos. Os Paradões, o segundo grupo, mantiveram os investimentos. No último terço estavam aquelas empresas que, por coragem ou imprudência, seguiram o caminho oposto ao dos Propulsores e diminuíram em 4% seu gasto relativo com marketing no mesmo período. Ao analisar o porcentual de mudança em valor para o acionista durante os 20 anos para os três grupos, constatamos que permanecer na zona de segurança do marketing estável não é uma opção viável: os Paradões tiveram desempenho 28% abaixo do mercado de ações.
Os aumentos em proporção de publicidade dos Propulsores realmente produziram valor significativamente maior para o acionista, acompanhando a evolução do índice Dow Jones, demonstrando assim a lógica da crença ortodoxa do poder do marketing. O que a análise convencional provavelmente não conseguiria prever era o desempenho dos Pioneiros. Apesar de terem reduzido a proporção dos investimentos em publicidade em relação a vendas, essas empresas criaram valor para o acionista 80% acima do índice Dow Jones. Oitenta por cento!
Os Pioneiros também se saíram muito melhor em lucratividade, que cresceu em média 58% mais do que os Propulsores.É vantagem impressionante, mas claramente menor do que a diferença no crescimento da receita. Apesar do desempenho muito inferior dos Propulsores em termos de crescimento da receita, e do fato de estarem aumentando seus gastos com marketing, o grupo claramente conseguiu recuperar um pouco do território perdido: sua diferença relativa em termos de crescimento dos lucros é menos grave do que seria esperado. Como conseguiram? Cortando outros custos, especialmente de produção e P&D. A combinação desses cortes e as economias de escala mais do que compensaram o aumento na proporção dos investimentos em publicidade em relação a vendas, permitindo que os Propulsores se recuperassem um pouco ante a enorme vantagem dos Pioneiros em termos de crescimento dos lucros.
Em suma: apesar da combinação de esforços, investimentos em marketing e cortes de custos poder produzir crescimento, as conquistas dos Pioneiros demonstram que há uma alternativa mais criativa, mais animadora e mais inteligente que produz resultados ainda melhores. Obviamente, não basta apenas reduzir a proporção dos investimentos em marketing. Um simples corte em publicidade muito provavelmente resultaria em menor crescimento. Na verdade, nosso estudo mostra que os Pioneiros movidos a momento aumentaram seus gastos totais em marketing em termos reais. Devido ao crescimento superior da receita dos Pioneiros, sua proporção de investimentos em publicidade em relação a vendas estava se reduzindo apesar do fato de estarem gastando mais.
Em um mundo de concorrência cada vez mais intensa, os recursos de marketing também crescem. É inevitável. Mas se pretendem gerar crescimento sustentável e lucrativo, esses investimentos devem ser feitos de uma maneira eficaz. Em comparação com os Propulsores, o aumento de investimentos em marketing dos Pioneiros produziu crescimento superior ao mesmo tempo em que reduziu a proporção entre investimentos em marketing em relação a vendas, o que melhorou a lucratividade. Essas empresas alcançaram maior eficiência com seu marketing porque descobriram um caminho diferente: criaram as condições que deram início a um crescimento orgânico excepcional que se alimenta de si mesmo.
A APPLE sempre entendeu a importância do design e da interface com o cliente, mas o iPod é muito mais do que isso. O iPod é cool. Captura a imaginação dos clientes. Hoje existem dúzias de sucedâneos mais baratos, mas o iPod ainda está no topo. Quando o Índice de Satisfação do Consumidor americano começou a ser mensurado, a Apple ocupava uma das últimas posições no setor de informática. A volta por cima começou com o lançamento do iMac, em 1998. Apenas dois anos depois, os índices de satisfação dos clientes da Apple haviam saltado para o terceiro lugar no setor. Em 2004, apoiada pelo efeito positivo do iPod, a Apple chegou à primeira posição, de onde nunca mais saiu.
O Falcon 7X foi o primeiro avião projetado com um novo software que permitia que os engenheiros simulassem o impacto de todas as ações possíveis. A Dassault decidiu usar essa plataforma virtual para envolver usuários, empresas de manutenção e fornecedores para as discussões sobre o protótipo. A imagem da aeronave virtual permitiu que as diferentes partes contribuíssem para o projeto antes de sua finalização. O tempo de montagem foi reduzido em mais de 50% em relação a modelos anteriores, e os custos caíram em 66%. O avião não ficou apenas mais barato, também era melhor. A notícia se espalhou. A pré-venda estourou.
Anos de ouro
Quanto se estima que o efeito momento se prolongou em diferentes empresas
